O que o movimento dos direitos humanos dos homens pode fazer pelos homens gays e o que os homens gays podem fazer pelo movimento dos direitos humanos dos homens



Volta e meia, aparecem nas postagens e conteúdos veiculados por ADHs pessoas que por algum motivo sentem aversão ao movimento sopa-de-letrinha ou aos homens gays em particular, e se espantam quando é clarificado, pela enésima vez, que este nosso movimento não é anti-gay (e que conta com diversos homens gays, este que vos escreve incluso, em suas fileiras).  Ao menos esse é o sentimento mainstream do MDH, como atestam seus representantes mais conhecidos, como o Paul Elam nos EUA e o Aldir Gracindo no Brasil. Como afirma Matthew Lye no livro The New Gay Liberation:

“(...) a A Voice for Men, não é uma organização dos direitos gays, mas uma organização que se preocupa com questões como o suicídio, saúde mental, violência doméstica, direitos dos pais e justiça cavalheiresca, que podem afetar os direitos e o bem-estar de todos os homens e meninos.”

Porém, para um observador externo com pouco ou nenhum conhecimento acerca do movimento dos direitos humanos dos homens, talvez por conta das nossas pautas mais ”visíveis” (direitos dos pais, direitos dos homens casados em caso de divórcio, defesa dos falsamente acusados de estupro/violência doméstica, etc.), que aparentam afetar exclusiva ou majoritariamente homens heterossexuais, de que o MDH realmente não inclui a defesa dos direitos dos homens gays.

E por que precisaria incluir? Afinal de contas, já existe um movimento articulado e bem financiado (LGBTQASEREJE) que supostamente luta pelas causas gays específicas, certo? Well, não exatamente.  Como expresso no já citado livro The New Gay Liberation, bem como no ensaio Dangerous Trends on Feminism (Que traduzi em três partes: 1, 2 e 3), quando o movimento dos direitos dos gays parecia estar ganhando tração e alguma influência política, ele foi cooptado por feministas, que decidiram que ao invés de lutar por tratamento igualitário os gays deveriam se juntar a elas em sua infindável oposição ao machismo.

Ademais, como demonstram diversos artigos da imprensa “amiga”, os homens gays estão sendo novamente tratados como cidadãos de segunda classe no movimento que eles mesmos criaram (primeiro, deviam ceder seu lugar privilegiado às lésbicas separatistas feministas, agora, devem colocar os direitos e necessidades de pessoas transgênero, bem como de sexualidades de Tumblr recentemente inventadas – em sua maior parte para devolver às mulheres brancas um pedacinho do delicioso bolo da opressão).



É válido entrar em detalhes dos aspectos da sociedade que afetam todos os homens, a despeito de sua orientação sexual, credo, raça e etc, como expostos acima por Lye.

Suicídio e Saúde Mental

Um estudo publicado no American Journal of Preventive Medicine analisou 123.289 suicídios ocorridos entre os anos 2003 e 2014 em 18 estados dos EUA. Destas vítimas, 96.119 (78%) eram homens. E dentre esses homens, 335 (0,34%) eram homens gays. Dentre as vítimas não-heterossexuais (gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros), que contavam um total de 621 casos, 53,9% eram homens gays. Antes de simplesmente descartar a porcentagem de homens gays suicidas como ínfima, deve-se levar em conta, é claro, a proporção minoritária da população gay com relação à heterossexual.

O estudo descobriu também que o método “preferido” de suicídio entre homens gays era a tríade estrangulamento/sufocamento/enforcamento (32%), diferentemente de suas contrapartes heterossexuais, que geralmente usavam armas de fogo (57%). Além disso, concluiu que embora problemas mentais fossem comuns tanto às vítimas heterossexuais quanto às homossexuais, porém mais homens gays que héteros foram efetivamente diagnosticados com algum tipo de problema mental à época em que se suicidaram (47,8% vs 37,4%). Em decorrência disso, mais homens gays que héteros estavam recebendo tratamento para seus respectivos problemas de saúde mental ou de dependência química. Outro dado curioso do estudo foi que 70,7 % das lésbicas suicidas estavam experimentando problemas com as parceiras íntimas no período da morte (em concordância com outros estudos que demonstram maior incidência de violência doméstica entre lésbicas, proporcionalmente, que entre casais heterossexuais), contra 36,4% dos homens gays, o que nos leva ao segundo ponto.

Violência doméstica



A violência doméstica contra os homens em geral é sabidamente desconsiderada, para efeitos de políticas públicas, quando não ridicularizada e diminuída. Muitas organizações LGBT insistem que os problemas que os homens gays encontram em denunciar a violência que sofrem, e ao procurar qualquer tipo de ajuda (psicológica, alimentos, abrigo, etc.) advém do fato de que eles são gays, e não do fato de que eles são homens, o que é muito mais provável, considerando que é exatamente desse jeito que são tratados os homens em geral pelo que Erin Pizzey costuma chamar de “indústria da violência doméstica”.

Embora existam limitações na maioria dos estudos de caso desse cenário (em primeiro lugar, devido ao fato de se tratar de uma parcela minoritária da população, em segundo, por se tratar de uma condição por vezes mantida em segredo), pesquisas como a realizada por Suarez et al e publicada no American Journal of Men’s Health em 2018 concluíram que cerca de 40% dos respondentes, entre 160 casais do mesmo sexo formados por homens, reportaram terem sido vítimas de violência pelo parceiro íntimo, com o fator “homofobia internalizada” contribuindo para o risco de ocorrência desse tipo de agressão.

Direitos dos pais

Esse é um dos pontos que, embora quase exclusivamente afete homens heterossexuais, tem o potencial de afetar também homens gays. Mark Landridge, um homem gay de Essex, Reino Unido, após doar seu esperma para um casal de lésbicas em 1998 e novamente em 2000, sob a promessa de que a situação financeira das duas era estável e que elas estavam para receber uma grana extra.

A relação entre as mães se deteriorou e elas se separaram. A mãe biológica, que ficou com a custódia, então pediu auxílio ao governo, que então foi atrás do pai biológico,  Mark, o intimando a pagar uma pensão semanal que Mark, um autônomo, não tem como pagar.

Acho que já me demorei bastante nos aspectos da nossa sociedade ginocêntrica que afeta ou tem o potencial de afetar todos os homens, a despeito de suas sexualidades.

Pessoalmente, uma coisa que aprecio no MDH que não se encontra no feminismo ou no movimento sopa de letrinhas é a luta pela liberdade para que se possa seguir o caminho que se quer. Quer ser um homem “à moda antiga”, prover e proteger, vai lá, fera! Quer ter um emprego que lhe garanta o suficiente para a subsistência e gastar tudo o que porventura restar com games, quadrinhos ou outras “criancices”? Vai lá, meu, a vida é tua, faz o que te faz bem! Quer convidar cinco negões rombudos para uma noitada da qual nenhuma prega será poupada? Well, usa camisinha e parte pro abraço (grupal)!




Chegamos agora à segunda questão do título, e bem, that’s a tricky one. Pessoas individuais, homens ou mulheres, negras ou brancas contribuem com o MDH de diversas formas (financeiramente, com produção de conteúdo, realização de palestras e outras iniciativas, etc), e é extremamente idiota categorizar os subgrupos de pessoas que ajudam nas ações institucionais e pontuar cada categoria de acordo com qualquer métrica.

Tentemos, ainda assim, usando de uma ferramenta mágica chamada generalização.

Além da caricata tokenização que nossos oponentes apontam quando afirmamos o quanto nosso movimento é verdadeiramente diverso, que outras coisas um homem gay “traz à mesa” do movimento dos homens?

Essa é a minha opinião pessoal, entendam bem, mas uma coisa que creio que seja uma contribuição ímpar dos homens gays ao MDH é o amor, nascente da atração sexual, pelos homens e pela masculinidade.

Um homem gay, a menos que tenha sido totalmente emasculado com sucesso, e mesmo que goste de afirmar o contrário, se sente atraído por características masculinas, físicas, comportamentais e psicológicas.




E diferente das mulheres (nawalt, of course), que durante nossa trajetória evolucionária foram educadas a selecionar entre os maiores protetores e principalmente provedores, a atração de um homem gay por outro homem é mais básica, por assim dizer (isso não quer dizer, é claro, que não exista gay aproveitador e “hipergâmico”). Principalmente na juventude, tem a ver com o físico. Na velhice, pelo desejo de companhia.

Mas acho que já me estendi demais. O verdadeiramente importante para qualquer pessoa, independente de sexo, orientação sexual, cor de pele, religião, etc, que quiser se envolver com o MDH é uma vontade genuína de ser agente de mudança, trabalhando pelo tratamento digno e justo de todos os homens e meninos, sem distinção.

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