Não confunda a reação do oprimido...




O texto a seguir é uma tradução minha de um artigo de Karen Straughan. Enquanto não me aventuro novamente em traduções mais longas (como recentemente, em que traduzi o Mito do Poder Masculino do Farrell), pensei em traduzir alguns dos posts mais antigos da Karen. Este é de 2011. . Desnecessário dizer que todas as opiniões expressas por ela (e por outros autores cujas obras eu venha a traduzir) não são necessariamente as mesmas que as minhas. Mas concordo com o teor geral da mensagem, por isso me prestei ao trabalho.


... com a violência do opressor.

Essa frase conjura imagens como a da revolta dos escravos que liberou o Haiti, da Tomada da Bastilha, que desencadeou a Revolução Francesa, ou dos austeros e endurecidos pela batalha soldados Mujahideen atormentando a força de ocupação soviética no Afeganistão dos anos 1980.

Ou... bem, se você for uma feminista radical, ela pode conjurar imagens de Lorena Bobbitt, Catherine Kieu Becker, e qualquer número de mulheres que promoveram atos horríveis, às vezes de natureza sexual, de violência contra homens.

Lorena Bobbitt
Catherine Kieu Becker

Essa filosofia – de que a violência do oprimido não é a mesma coisa que a violência do opressor – é o que levou à supressão e rejeição feminista de quase 300 estudos sobre a violência doméstica publicados desde o início dos anos 1980, estudos que demonstraram que as mulheres são tão agressivas, se não mais agressivas, em seus relacionamentos quanto os homens são. É a filosofia que faz com que as feministas enfatizem a importância do “contexto” (algo que muitos dos quase 300 estudos explicitamente abordam), e então distorcer essas contextualizações completamente a ponto de se tornarem disformes. É o que leva às defensoras das mulheres a concluir que que as políticas de detenção mandatória adotadas nos anos 1980 resultaram em “vítimas” sendo detidas juntamente ou mesmo no lugar de seus abusadores quando as detenções de mulheres na Califórnia aumentaram em 446% e as dos homens em apenas 37%, e então adotarem políticas do agressor predominante para remediar esse “problema”.

É o que as leva a atribuir motivações empiricamente infundadas a mulheres abusadoras que se adequam com as “posições relativas dos homens e das mulheres na sociedade”, e, portanto, a considerar o espancamento de maridos como um “avanço” ao rumo do empoderamento, ao invés de considerá-lo como um ato de retrocesso pisoteante movido a raiva, inveja, dominação e, sim, opressão. É o que permite tanto a feministas quanto pessoas normais considerar a violência feminina contra homens não apenas compreensível, mas como uma resistência justificada e mesmo admirável às “normas patriarcais”, enquanto a violência masculina contra as mulheres se tornou ainda mais universalmente condenável do que sempre foi.

É o que leva o público em geral a concluir, a despeito de toda evidência gritante, colorida em neon, enfeitada com lantejoulas e sinalizadores pirotécnicos ao contrário – anúncios de utilidade pública, a Lei Maria da Penha1, políticas de prisão mandatória, serviços de assistência por telefone, abrigos para mulheres agredidas, ordens de restrição facilmente obtidas, políticas do agressor primário, Joe Biden, a proteção de ter seu passado sexual vir à tona em caso de acusação de estupro, comitês de agressão sexual em campi universitários, financiamento proveniente de bilhões de dólares dos contribuintes, assédios, tiroteios e espancamentos de “justiceiros” esporádicos, e lições que todo garoto aprende desde bebê que “NUNCA se deve bater em uma menina” – que a sociedade não leva a violência contra a mulher suficientemente a sério.

Isso mesmo. Em um mundo onde a violência doméstica de mulheres contra homens é motivo de comédia em desenhos do Pernalonga, onde a Mutilação Genital Feminina é abominada e legalmente proibida enquanto a Circuncisão Infantil Masculina  evoca encolhimentos de ombros em indiferença, onde revidar um ataque de uma mulher  pode mandar um homem ao hospital enquanto horas de uma agressão pública de um homem por uma mulher não é considerada um problema maior pelos transeuntes, é a violência contra as mulheres que não é levada suficientemente a sério.


Quando o simples fato de que essa pode ser nossa percepção coletiva diante dos bilhões de dólares que gastamos nesse problema, a legislação digna de milhões de palavras que adotamos para enfrentá-lo, e as milhares em cima de milhares de horas que tempo midiático devotado a ele... tudo isso me diz que a sociedade, como um todo, leva a violência contra as mulheres TÃO a sério que não vai parar por nada para que possa dar um fim a ela.

E por quê? Digo, não é como se a sociedade nunca tenha levado essa questão a sério – os homens costumavam lutar até a morte por conta de mulheres que tinham sido machucadas, se jogavam na frente de balas para protegê-las, e mesmo mulheres casadas tiveram quase sempre alguma forma de recurso legal contra maridos que as espancavam. A proteção das mulheres contra danos físicos e sexuais têm sido sempre do melhor interesse da sociedade, porque as mulheres são inerentemente e individualmente importantes para o funcionamento da sociedade. Mas agora? É como se tivéssemos ficado coletivamente insanos em nossa ânsia de proteger as mulheres, ao ponto de que nós alegremente redefinimos agressoras mulheres como vítimas, prendemos os homens que elas agrediram, e juntamos todo exemplo de violência dentro de um relacionamento em uma narrativa que se resume ao homem dominante, furioso e controlador e à mulher vitimizada e intimidada – mesmo quando é óbvio que os papeis são o exato inverso.

Porque um único exemplo de violência por um “opressor”, não importa o quão brando ou o quão justificado, é horrível o suficiente para ofuscar uma centena de ataques do tipo advindos de um membro de uma “classe oprimida”. Se acreditamos que as mulheres são, ou tem sido, uma classe oprimida, e inferiores aos homens na sociedade, então a violência feminina contra homens é uma revolta justa, enquanto a violência masculina pode ser considerada como sendo tudo o que é feio e ruim em um tirano, o salto da bota da opressão.

E assim foi como o feminismo tomou nosso já saudável desejo – quer seja inato ou socializado, ou um pouco de ambos – de proteger as mulheres da violência, e o transformou em um impulso mutante, bombado, que desafia a lógica, de não apenas proteger as mulheres de danos, mas de abater o máximo de homens, inocentes ou culpados, que pudermos, mesmo que ao fazer isso nós coloquemos crianças em risco. Porque se as mulheres são e sempre foram uma classe oprimida, a violência delas contra seus opressores não é abominável. Todo pênis cortado e enfiado em um triturador é um triunfo metafórico contra a tirania e a opressão.

É essa filosofia que permitiu que uma audiência de mulheres risse e se regozijasse com a castração bárbara de um homem que cometeu o terrível crime de pedir a sua esposa por um divórcio, e levou muitas pessoas a especular, sem qualquer outro detalhe, que ela provavelmente era uma mulher agredida. É o que levou mulheres por toda a América do Norte a enxergar a atrocidade de Catherine Becker como não apenas justificável, mas como “totalmente fabulosa”, porque mesmo que tudo que soubéssemos (ou agora sabemos) sobre o Sr. Becker é que ele era um homem, qualquer homem, todo homem, bem, você sabe como os homens são... você sabe que ele deve ter feito alguma coisa para merecer isso.

Essa filosofia é o que leva muitos feministas – de acadêmicas ao manboobs – a caracterizar as tentativas dos ADH’s (Ativistas dos Direitos dos Homens) de trazer ao conhecimento público (e aos orçamentos do governo) a violência doméstica e sexual contra os homens como sendo “pensamento de soma zero”, antifeministas, misóginas, e uma agenda para desmantelar as proteções existentes para as mulheres. É essa visão de opressor (homem) e oprimida (mulher) que vê qualquer abordagem no sentido de ajudar vítimas masculinas de violência feminina como uma ameaça às mulheres que beira à própria violência, uma revitimização de uma “classe oprimida”.

E nada disso, mesmo, nada disso, é baseado na realidade. A realidade é que, as posições relativas dos homens e das mulheres na sociedade, ao longo da história, têm sido sempre balanceadas. Elas eram iguais? Nem de longe. Elas eram equitativas? Absolutamente. E a opressão que as feministas insistem que era uma via de mão única nas sociedades patriarcais, bem, simplesmente não é assim que era. As mulheres eram elevadas acima dos homens em muitos aspectos – mais notavelmente na motivação da sociedade de protegê-las de todo mal.

E antes que qualquer um dispare em uma diatribe besta a respeito de machismo benevolente e de como as mulheres eram protegidas porque você protege o que lhe pertence, ou porque elas eram vistas como crianças, ou porque elas eram úteis aos homens como objetos sexuais, ou porque elas não eram consideradas totalmente como seres humanos e que não tinham poder algum na sociedade com relação aos homens, eu vou direcioná-los para o Anexo A.

As Garotas da Pena Branca não seduziam os homens a se alistarem com a promessa de sexo ou favores. Aquelas jovens mulheres vinham para a matança, atingindo os homens no próprio coração de suas identidades masculinas, a entrega de uma pena dizendo a eles “Se você não partir para ser aleijado ou morto, você não é mais um homem aos olhos de uma guria atrevida que você nunca viu na vida e provavelmente nunca mais vai ver.” E muitos homens partiram, porque a censura de uma mulher – QUALQUER censura de uma mulher – tinha o poder de levá-los direto para as presas da morte.



Muitas feministas vão tentar te dizer que o Patriarcado (ou os homens, dependendo com quem você estiver falando) construiu a feminilidade de tal maneira a beneficiar os homens, assim discriminando as mulheres. Mas a masculinidade e a feminilidade evoluíram juntas, para que cada uma se beneficiasse da outra, e as mulheres tinham, e ainda têm, uma mão forte em moldar aquilo que é socialmente aceitável nos homens e o que não é.

Aquela harpia vitoriana empunhando uma frigideira perseguindo seu marido para fora de casa para que fosse trabalhar com gritos de “preguiçoso, vadio que não serve para nada! ” estava exercendo a versão “Hulk ESMAGA!” de um poder que todas as mulheres tinham, sempre tiveram, e ainda têm, sobre os homens.

Que o feminismo tenha conseguido convencer o mundo de que a opressão das sociedades patriarcais colocou as mulheres em último lugar em toda faceta da vida (mesmo em áreas em que elas eram elevadas acima dos homens), em uma posição na qual elas eram totalmente impotentes e incapazes de infligir opressão, ou onde seu único caminho para o poder e a agência era através de sua utilidade como éguas parideiras, escravas domésticas e receptáculos para a ejaculação masculina, enquanto apenas os homens tinham o poder necessário para oprimir quem quer que fosse, é uma façanha de trapaça geopolítica digna de Charles Ponzi.

E até que as sociedades ocidentais abram seus olhos e comecem a ver a realidade, ao invés de continuar a acreditar no que lhe foi dito, nós vamos continuar a enxergar a violência feminina como algo que ela não é – desculpável, justificável, menos prejudicial, uma rebelião justa contra a tirania, um avanço na direção do empoderamento – ao invés do que ela realmente é.

E até que nós, como uma sociedade, nos demos conta dessa divergência entre o que nos foi dito para acreditar, e o que é verdadeiramente real, nós vamos continuar a facilitar, justificar e até mesmo premiar a violência feminina, e a varrer todas aquelas vítimas masculinas inconvenientes que desafiam nossas ideias de como a sociedade realmente é, para debaixo do tapete onde não precisamos mais vê-las, ou pior, os reformulemos como sendo eles mesmos abusadores – toda uma subclasse de pessoas cujo crime foi machucar os punhos das mulheres com os seus rostos.

Publicação original:
Notas:
1 – No original, era a VAWA – Violence Against Women Act, uma lei tão sexista quanto a Lei Maria da Penha.
2 – David Futrelle é um ex-jornalista considerado um “especialista” no Movimento dos Direitos dos Homens por muitos jornalistas feministas. Ele costuma pintar uma visão distorcida do movimento ao selecionar trechos, geralmente fora do contexto, de textos de MRA’s e MGTOW’s, e apresentar aos seus leitores como um retrato definitivo dos ativistas dos direitos dos homens. Ele também é conhecido como “manboobs” (seios masculinos).







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