A SÍNDROME DE FREEDMAN-STOLTENBERG
Publicado pela primeira vez no Jornal MERGE – Movement for the
Establischment of Real Gender Equality (Movimento pelo Estabelecimento de uma
Igualdade de Gênero Real), editado pelo Ph. D. Ferrel Christensen, Professor de
Filosofia, Universidade de Alberta, Canadá. Já traduzi outro trabalho de
Christensen, aqui. Não há ano na publicação.
A maioria dos leitores do boletim
informativo do MERGE não vai reconhecer os nomes de Max Freedman e John
Stoltenberg. Aqueles que reconhecerem, porém, estão aptos a ficar seriamente
confusos com o título deste artigo. “O que é que esses dois podem possivelmente ter em comum? Eles estão nos opostos
extremos de seus respectivos pontos de vista – o primeiro é um forte
tradicionalista em se tratando de questões de igualdade de gênero e o outro é
um feministo radical!” Mas o âmago da experiência emocional que motiva o
ativismo dele é o mesmo. Onde esses dois diferem profundamente é nas reações
deles a essa experiência.
Para melhor explicar isso, vamos
dar uma olhada breve nos pontos de vista de cada um desses homens. Freedman
argumenta vociferadamente por um retorno aos papeis de gênero tradicionais em
um livro graficamente titulado Manhood
Redux (A Masculinidade Restaurada). Em certo ponto, focando nos anos da
infância quando começamos a nos engalfinhar com nosso senso de masculinidade e
feminilidade, ele desaprova os esforços legais no sentido de permitir que
meninas pequenas atléticas a jogarem nos times esportivos dos meninos. Agora, é
possível objetar a esses esforços por muitos motivos, como por exemplo, a
liberdade de associação. Mas a preocupação central de Freedman é o efeito
emocional nos garotos pequenos de terem de competir com meninas. Uma menina a
que for negada a oportunidade de participar em um esporte masculino vai se
recobrar do desapontamento, diz ele; mas o menino que não seja tão atlético que
se ver derrotado por uma menina pode ficar com uma séria cicatriz emocional,
ele diz, e o conceito de si mesmo enquanto homem pode ser permanentemente
prejudicado.
Para um exemplo das ideias de
Stoltenberg sobre ser homem, deixe-me simplesmente citá-lo, em suas próprias
palavras:
O sexo masculino é socialmente
construído. É uma entidade política que prospera apenas através da força e atos
de terrorismo sexual. Além da inferiorização e subordinação global daqueles que
são definidos como “não-homens”, a ideia de associação pessoal com a classe
sexual masculina não teria nenhum significado reconhecível. Não faria sentido
algum. Ninguém poderia ser membro dela e ninguém iria pensar que deveria ser um
membro dela. Não existiria nenhum sexo masculino do qual fazer parte. Isso não
significa que não existiriam mais pênis e ejaculação e glândulas prostáticas e
coisas do tipo. Isso simplesmente significa que o cerne de nossa
individualidade não seria forçado a residir dentro de uma categoria totalmente
fictícia – uma categoria que só parece real na medida em que aqueles fora dela
são derrubados.
O que duas pessoas em oposição
assim tão completa um do outro como Freedman e Stoltenberg têm em comum? Deixemos que eles respondam em suas próprias
palavras:
Primeiro Freedman:
Eu sou um especialista na questão de
ser humilhado no campo atlético porque esse foi o conto da minha juventude. Na
vizinhança em que eu cresci, havia os esportes e também havia, numa categoria
bem mais baixa, todo o restante (o que era triste – mas não mais que a atitude
de muitos homens feministos nos dias de hoje que acham que é totalmente chique
denegrir os esportes). E eu era sempre o último a ser escolhido. Existe uma
porção de maneiras nas quais eu sei que o desapontamento e a humilhação pelos
quais eu passei afetaram meu desenvolvimento. (outras podem apenas ser
especuladas. Eu “compensava” de todo jeito que eu podia pensar: falando de um
jeito rude, dizendo coé para qual é o problema?; usando gramática
incorreta de propósito, etc.); Por ter um desempenho escolar
deliberadamente mais baixo do que eu era capaz porque eu não podia aguentar
ouvir, de novo e de novo, “Você pode ser bom na escola, mas nos esportes é uma
merda”. (era melhor, na minha ingenuidade, ser um merda em ambos); ao me
alistar na marinha tão logo eu fiz 17 anos, começar a praticar boxe logo depois
que eu saí de lá, e ao fazer muitas outras coisas de “macho”.
Stoltenberg diz:
O tempo todo, quando eu estava
crescendo, eu sabia que havia uma coisa realmente problemática com meu
relacionamento com a masculinidade. Dentro, bem lá dentro, eu nunca acreditei
que era inteiramente homem. Eu nunca
acreditei que estava crescendo como homem o suficiente. Eu acreditava que em
algum lugar lá fora, em outros homens, havia algo que era a masculinidade
americana genuinamente autêntica – o artigo verdadeiro – e eu não tinha isso;
não o suficiente disso para me convencer, de qualquer modo, mesmo que eu
conseguisse ser razoavelmente convincente para aqueles ao meu redor. Eu me
sentia como um impostor, como uma fraude. Eu agonizava muito a respeito de não
me sentir homem o suficiente, e eu não fazia ideia do quanto eu não estava sozinho.
Esse tipo de dor emocional
sentida por esses dois homens quando eles eram jovens é comum a muitos homens e
mulheres – provavelmente à maioria, em maior ou menor grau. O problema em
falhar em corresponder a padrões externos impostos para um sexo é frequentemente
discutido nesse boletim. Mas como as duas histórias duramente ilustram, os
mecanismos de defesa empregados para lidar com a experiência podem diferir
drasticamente. Para Freedman a defesa foi “formação reativa“ (1):
“Não me diga que eu não sou homem de verdade! Eu vou ser mais macho que todos
vocês”. Para Stoltenberg, foi uma versão extrema de “dor de cotovelo”: “A
masculinidade não vale nada, de qualquer jeito – e tentar alcançá-la é
consumadamente mal”.
Ambas as reações são tragicamente
desnecessárias. Nunca ocorreu a Freedman – na melhor das hipóteses, ele falha
em admitir a possibilidade – que a verdadeira fonte de sua dor pessoal pode ter
sido a mesma camisa de força de papeis de gênero que ele agora defende com
todas as forças. Por que não ocorreu
a ele? Talvez porque, tendo lutado tão desesperadamente para “conquistar sua
masculinidade”, ele não pode agora admitir que os sacrifícios foram todos
desnecessários. A empatia dele por aqueles meninos é inteiramente justificada,
mas não parece ocorrer a ele que, se eles não tivessem sido levados a se
sentirem inseguros em sua masculinidade em primeiro lugar (ao falhar em viver
de acordo com um padrão previamente assinalado de masculinidade), eles não se
importariam em serem derrotados em uma carreira “masculina” por uma garota.
Embora tenha sido manipulado a sua vida inteira pela provocação “Você não é homem o suficiente?”, Freedman está
disposto a deixá-los correr pelo mesmo desafio cruel. Através de esforços
inexoráveis, ele foi capaz de alcançar o nível de destreza física que via como
uma exigência para que tivesse um senso de masculinidade plena. Mas outros
podem nunca ser capazes de fazer isso; para eles, a solução dele para seus sentimentos de
inadequação não irá funcionar. O que nos traz de volta a Stoltenberg.
Ele não está melhor que Freedman
– está muito pior, de fato, a meu ver. Pois ele se sentiu compelido, não apenas
a rejeitar os padrões masculinos tradicionais como irrelevantes para ele
enquanto um homem individual, mas a rejeitar e desprezar a masculinidade em si.
Essa compulsão só pode deixá-lo, lá no fundo, em um estado de auto-aversão,
desesperadamente lutando contra cada traço nele mesmo que aconteça de ser
identificado com o masculino – mesmo que para ele determinado traço é perfeitamente
natural e saudável. No mínimo, a reação dele o deixa desprezando vastos números
de seres humanos para os quais vários atributos “masculinos” não são
manifestações de um papel adquirido, mas perfeitamente naturais (mesmo que se
descubra - algo que ainda não sabemos – que muito poucas das diferenças psicológicas médias entre os sexos são
produzidas biologicamente ao invés de através do ambiente, continuará sendo
fato que muitas diferenças psicológicas entre os indivíduos são produzidas pela
natureza – e que alguns desses traços naturais são aqueles que Stoltenberg
despreza porque ele os vê como masculinos). Para defender seu próprio senso de
autovalorização sobre ser feito se sentir inferior por ser diferente dos
outros, Stoltenberg atribui inferioridade àqueles que são diferentes dele. Para reforçar essa resposta ao
explicar como outros homens poderiam ser tão perversos a ponto de diferir dele,
ele finge que ele pode ler as mentes deles, por vezes atribuindo motivos a eles
que são imorais ao extremo (Se você quiser ser exposto a puro ódio, basta ler
algumas das afirmações feitas por ele e sua mentora Andrea Dworkin sobre as
motivações internas do que são sentimentos sexuais comprovadamente naturais
para a maioria dos homens).
Para ambos Freedman e Stoltenberg,
o erro lógico central é de associação: confundir o papel masculino com aspectos
da masculinidade biológica. É uma falha deles em perceber que, a despeito de
atitudes sociais, não é preciso viver de acordo com algum padrão externo de
maneira a ser um homem de verdade. Reconhecer a dignidade inerente da natureza
individual de cada um é a essência da “liberação”. Freedman é um escravo do
papel masculino tradicional, mas assim também o é, de maneira diferente,
Stoltenberg. Deixou-o preso em uma batalha titânica contra um inimigo que não
existe – uma batalha que pode acabar causando mais miséria humana que o inimigo
real, os papeis sexuais artificiais, jamais conseguiram.
A notícia verdadeiramente ruim é
que existem muitos Freedmans e Stoltenbergs por aí. Em diversos graus, muitos
homens respondem às expectativas tradicionais para os homens dessas duas
maneiras. Esse fenômeno foi acelerado nos últimos 25 anos pelo movimento das
mulheres abalando as percepções tradicionais da sociedade do que é ser mulher –
e do que é ser homem. A verdadeira solução para a dor de fugir aos padrões para
um sexo não reside em “novas fitas para um velho tocador” - tocar uma nova
série de fitas em nossas cabeças exigindo que vivamos de acordo com um novo
padrão externo (embora unissex) – nem em tocar as velhas fitas mais alto para
abafar sons conflitantes. Reside em aprender a respeitar a singularidade de
todas as pessoas – inclusive a própria.
Nota do Tradutor:
1 - Formação
reativa (em alemão: Reaktionsbildung),
na teoria psicanalítica, é um mecanismo de defesa no qual emoções e
impulsos que produzem ansiedade ou que são percebidos como inaceitáveis são
dominados pelo exagero da tendência diretamente oposta. Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Forma%C3%A7%C3%A3o_reativa
Feminismo Delenda Est!



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