A SÍNDROME DE FREEDMAN-STOLTENBERG


Publicado pela primeira vez no Jornal MERGE – Movement for the Establischment of Real Gender Equality (Movimento pelo Estabelecimento de uma Igualdade de Gênero Real), editado pelo Ph. D. Ferrel Christensen, Professor de Filosofia, Universidade de Alberta, Canadá. Já traduzi outro trabalho de Christensen, aqui. Não há ano na publicação.

A maioria dos leitores do boletim informativo do MERGE não vai reconhecer os nomes de Max Freedman e John Stoltenberg. Aqueles que reconhecerem, porém, estão aptos a ficar seriamente confusos com o título deste artigo. “O que é que esses dois podem possivelmente ter em comum? Eles estão nos opostos extremos de seus respectivos pontos de vista – o primeiro é um forte tradicionalista em se tratando de questões de igualdade de gênero e o outro é um feministo radical!” Mas o âmago da experiência emocional que motiva o ativismo dele é o mesmo. Onde esses dois diferem profundamente é nas reações deles a essa experiência.

Para melhor explicar isso, vamos dar uma olhada breve nos pontos de vista de cada um desses homens. Freedman argumenta vociferadamente por um retorno aos papeis de gênero tradicionais em um livro graficamente titulado Manhood Redux (A Masculinidade Restaurada). Em certo ponto, focando nos anos da infância quando começamos a nos engalfinhar com nosso senso de masculinidade e feminilidade, ele desaprova os esforços legais no sentido de permitir que meninas pequenas atléticas a jogarem nos times esportivos dos meninos. Agora, é possível objetar a esses esforços por muitos motivos, como por exemplo, a liberdade de associação. Mas a preocupação central de Freedman é o efeito emocional nos garotos pequenos de terem de competir com meninas. Uma menina a que for negada a oportunidade de participar em um esporte masculino vai se recobrar do desapontamento, diz ele; mas o menino que não seja tão atlético que se ver derrotado por uma menina pode ficar com uma séria cicatriz emocional, ele diz, e o conceito de si mesmo enquanto homem pode ser permanentemente prejudicado.

Stoltenberg acompanhado de sua esposa (só sendo um vinhado que se odeia pra casar com esse tribufu), Andrea Dworkin, na casa deles no Brooklin, em 2003, dois anos antes de ela abençoar este mundo, deixando-o

Para um exemplo das ideias de Stoltenberg sobre ser homem, deixe-me simplesmente citá-lo, em suas próprias palavras:

O sexo masculino é socialmente construído. É uma entidade política que prospera apenas através da força e atos de terrorismo sexual. Além da inferiorização e subordinação global daqueles que são definidos como “não-homens”, a ideia de associação pessoal com a classe sexual masculina não teria nenhum significado reconhecível. Não faria sentido algum. Ninguém poderia ser membro dela e ninguém iria pensar que deveria ser um membro dela. Não existiria nenhum sexo masculino do qual fazer parte. Isso não significa que não existiriam mais pênis e ejaculação e glândulas prostáticas e coisas do tipo. Isso simplesmente significa que o cerne de nossa individualidade não seria forçado a residir dentro de uma categoria totalmente fictícia – uma categoria que só parece real na medida em que aqueles fora dela são derrubados.

O que duas pessoas em oposição assim tão completa um do outro como Freedman e Stoltenberg têm em comum?  Deixemos que eles respondam em suas próprias palavras:
Primeiro Freedman:

Eu sou um especialista na questão de ser humilhado no campo atlético porque esse foi o conto da minha juventude. Na vizinhança em que eu cresci, havia os esportes e também havia, numa categoria bem mais baixa, todo o restante (o que era triste – mas não mais que a atitude de muitos homens feministos nos dias de hoje que acham que é totalmente chique denegrir os esportes). E eu era sempre o último a ser escolhido. Existe uma porção de maneiras nas quais eu sei que o desapontamento e a humilhação pelos quais eu passei afetaram meu desenvolvimento. (outras podem apenas ser especuladas. Eu “compensava” de todo jeito que eu podia pensar: falando de um jeito rude, dizendo coé para qual é o problema?; usando gramática incorreta de propósito, etc.); Por ter um desempenho escolar deliberadamente mais baixo do que eu era capaz porque eu não podia aguentar ouvir, de novo e de novo, “Você pode ser bom na escola, mas nos esportes é uma merda”. (era melhor, na minha ingenuidade, ser um merda em ambos); ao me alistar na marinha tão logo eu fiz 17 anos, começar a praticar boxe logo depois que eu saí de lá, e ao fazer muitas outras coisas de “macho”.

Stoltenberg diz:

O tempo todo, quando eu estava crescendo, eu sabia que havia uma coisa realmente problemática com meu relacionamento com a masculinidade. Dentro, bem lá dentro, eu nunca acreditei que era inteiramente homem.  Eu nunca acreditei que estava crescendo como homem o suficiente. Eu acreditava que em algum lugar lá fora, em outros homens, havia algo que era a masculinidade americana genuinamente autêntica – o artigo verdadeiro – e eu não tinha isso; não o suficiente disso para me convencer, de qualquer modo, mesmo que eu conseguisse ser razoavelmente convincente para aqueles ao meu redor. Eu me sentia como um impostor, como uma fraude. Eu agonizava muito a respeito de não me sentir homem o suficiente, e eu não fazia ideia do quanto eu não estava sozinho.

Esse tipo de dor emocional sentida por esses dois homens quando eles eram jovens é comum a muitos homens e mulheres – provavelmente à maioria, em maior ou menor grau. O problema em falhar em corresponder a padrões externos impostos para um sexo é frequentemente discutido nesse boletim. Mas como as duas histórias duramente ilustram, os mecanismos de defesa empregados para lidar com a experiência podem diferir drasticamente. Para Freedman a defesa foi “formação reativa“ (1): “Não me diga que eu não sou homem de verdade! Eu vou ser mais macho que todos vocês”. Para Stoltenberg, foi uma versão extrema de “dor de cotovelo”: “A masculinidade não vale nada, de qualquer jeito – e tentar alcançá-la é consumadamente mal”.

Ambas as reações são tragicamente desnecessárias. Nunca ocorreu a Freedman – na melhor das hipóteses, ele falha em admitir a possibilidade – que a verdadeira fonte de sua dor pessoal pode ter sido a mesma camisa de força de papeis de gênero que ele agora defende com todas as forças. Por que não ocorreu a ele? Talvez porque, tendo lutado tão desesperadamente para “conquistar sua masculinidade”, ele não pode agora admitir que os sacrifícios foram todos desnecessários. A empatia dele por aqueles meninos é inteiramente justificada, mas não parece ocorrer a ele que, se eles não tivessem sido levados a se sentirem inseguros em sua masculinidade em primeiro lugar (ao falhar em viver de acordo com um padrão previamente assinalado de masculinidade), eles não se importariam em serem derrotados em uma carreira “masculina” por uma garota. Embora tenha sido manipulado a sua vida inteira pela provocação “Você não é homem o suficiente?”, Freedman está disposto a deixá-los correr pelo mesmo desafio cruel. Através de esforços inexoráveis, ele foi capaz de alcançar o nível de destreza física que via como uma exigência para que tivesse um senso de masculinidade plena. Mas outros podem nunca ser capazes de fazer isso; para eles, a solução dele para seus sentimentos de inadequação não irá funcionar. O que nos traz de volta a Stoltenberg.

Ele não está melhor que Freedman – está muito pior, de fato, a meu ver. Pois ele se sentiu compelido, não apenas a rejeitar os padrões masculinos tradicionais como irrelevantes para ele enquanto um homem individual, mas a rejeitar e desprezar a masculinidade em si. Essa compulsão só pode deixá-lo, lá no fundo, em um estado de auto-aversão, desesperadamente lutando contra cada traço nele mesmo que aconteça de ser identificado com o masculino – mesmo que para ele determinado traço é perfeitamente natural e saudável. No mínimo, a reação dele o deixa desprezando vastos números de seres humanos para os quais vários atributos “masculinos” não são manifestações de um papel adquirido, mas perfeitamente naturais (mesmo que se descubra - algo que ainda não sabemos – que muito poucas das diferenças psicológicas médias entre os sexos são produzidas biologicamente ao invés de através do ambiente, continuará sendo fato que muitas diferenças psicológicas entre os indivíduos são produzidas pela natureza – e que alguns desses traços naturais são aqueles que Stoltenberg despreza porque ele os vê como masculinos). Para defender seu próprio senso de autovalorização sobre ser feito se sentir inferior por ser diferente dos outros, Stoltenberg atribui inferioridade àqueles que são diferentes dele. Para reforçar essa resposta ao explicar como outros homens poderiam ser tão perversos a ponto de diferir dele, ele finge que ele pode ler as mentes deles, por vezes atribuindo motivos a eles que são imorais ao extremo (Se você quiser ser exposto a puro ódio, basta ler algumas das afirmações feitas por ele e sua mentora Andrea Dworkin sobre as motivações internas do que são sentimentos sexuais comprovadamente naturais para a maioria dos homens).

Para ambos Freedman e Stoltenberg, o erro lógico central é de associação: confundir o papel masculino com aspectos da masculinidade biológica. É uma falha deles em perceber que, a despeito de atitudes sociais, não é preciso viver de acordo com algum padrão externo de maneira a ser um homem de verdade. Reconhecer a dignidade inerente da natureza individual de cada um é a essência da “liberação”. Freedman é um escravo do papel masculino tradicional, mas assim também o é, de maneira diferente, Stoltenberg. Deixou-o preso em uma batalha titânica contra um inimigo que não existe – uma batalha que pode acabar causando mais miséria humana que o inimigo real, os papeis sexuais artificiais, jamais conseguiram.

A notícia verdadeiramente ruim é que existem muitos Freedmans e Stoltenbergs por aí. Em diversos graus, muitos homens respondem às expectativas tradicionais para os homens dessas duas maneiras. Esse fenômeno foi acelerado nos últimos 25 anos pelo movimento das mulheres abalando as percepções tradicionais da sociedade do que é ser mulher – e do que é ser homem. A verdadeira solução para a dor de fugir aos padrões para um sexo não reside em “novas fitas para um velho tocador” - tocar uma nova série de fitas em nossas cabeças exigindo que vivamos de acordo com um novo padrão externo (embora unissex) – nem em tocar as velhas fitas mais alto para abafar sons conflitantes. Reside em aprender a respeitar a singularidade de todas as pessoas – inclusive a própria.

Nota do Tradutor:

1 - Formação reativa (em alemão: Reaktionsbildung), na teoria psicanalítica, é um mecanismo de defesa no qual emoções e impulsos que produzem ansiedade ou que são percebidos como inaceitáveis são dominados pelo exagero da tendência diretamente oposta. Fonte:  https://pt.wikipedia.org/wiki/Forma%C3%A7%C3%A3o_reativa

Feminismo Delenda Est!

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