Tendências Perigosas no Feminismo - Parte 1: Interrupções e Distrações



Olá, hermanos!

O texto a seguir, que pretendo dividir em três partes, é de autoria de John Lauritsen, escritor e ativista dos direitos dos gays das antigas. Foi também apresentado pelo mesmo autor durante a 4ª Conferência da União Acadêmica Gay, em Nova Iorque, 1976. Ele retrata os primórdios do movimento de liberação gay, e a cooptação que este sofreu por conta da segunda onda feminista. 


Os primórdios do movimento pelos direitos dos homossexuais e o movimento pela emancipação das mulheres foram ambos parte de um movimento de reforma sexual que ocorreu nas primeiras décadas do século 20; eles eram considerados como “irmãos em armas”. Isso também foi verdade na fase de liberação gay de nosso movimento, desde o outono de 1969 até hoje. Eu acredito é dessa maneira que deve ser, e que toda pessoa progressista deveria abraçar os objetivos básicos de ambos os movimentos – embora, pra ser sincero, nenhum deles representa um corpo de doutrina sistemático, e
ambos os movimentos possuem conflitos internos.

Infelizmente, um problema muito sério tem surgido. Autodenominadas feministas tem agido de um jeito que é nocivo tanto para a liberação dos gays quanto das mulheres, e idéias reacionárias têm avançado sob a bandeira do feminismo. Eu não estou dizendo que essas coisas são características do movimento das mulheres como um todo; na verdade, elas podem ser atribuídas a uma minoria, embora esta minoria seja muito visível.


Embora a crítica da homossexualidade masculina e da liberação gay tenha surgido livremente no campo feminista, a recíproca, vinda de homens gays, quase não existe, mesmo que em autodefesa. Tem se tornado quase um tabu criticar qualquer mulher que se identifique como “feminista”.

Por que feministas gozam dessa imunidade literal às críticas? Por uma série de razões: Porque a maioria dos homens gays realmente é aliada do movimento das mulheres, e por isso hesita em atacar uma “defensora das mulheres”. Por conta de um senso de culpa. Porque feministas têm freqüentemente exigido que as coisas com as quais discordem sejam censuradas, e geralmente são tão bem sucedidas nisso, que alguns homens francamente acabam ficando com medo delas. Há também um elemento de cavalheirismo masculino tradicional. E finalmente, há uma ideologia particular que justifica o status privilegiado que as feministas gozam dentro da União Acadêmica Gay e outros grupos gays.

De acordo com essa ideologia, a divisão mais básica na sociedade não é entre classes, mas entre macho e fêmea; distinções baseadas no gênero são vistas como muito mais importantes que distinções baseadas em riqueza e poder. De acordo com essa ideologia, há uma hierarquia de opressão, com a opressão das mulheres sendo a pior de todas. É uma opressão tão misteriosa, profunda e inefável, que não pode ser descrita em termos concretos, diferente de outras formas, inferiores, de opressão.

De acordo com essa ideologia a opressão dos homossexuais deriva do “machismo”, cuja fundação é a supremacia masculina. Homossexuais são oprimidos porque eles, não sendo vistos como “homens ou mulheres de verdade”, violam os “papeis sexuais” que o machismo abrange. Daí resulta que a opressão dos homens homossexuais é essencialmente um subproduto da opressão feminina, e que a liberação dos homens gays deve se seguir à liberação das mulheres. De fato, o movimento de liberação gay se torna o extremo abichornado do movimento das mulheres.

De acordo com essa ideologia, lésbicas são duplamente oprimidas – como homossexuais e mulheres – enquanto homens gays são meramente oprimidos. Homens gays ainda gozam do “privilégio masculino”, porque, de acordo com um dogma central do feminismo radical: TODOS OS HOMENS SE BENEFICIAM DA OPRESSÃO DE TODAS AS MULHERES. Então, aparentemente os homens gays não estão realmente tão mal, e talvez fosse melhor se eles não devotassem suas energias a repelir as leis contra sodomia e lutar contra a discriminação, pois esses objetivos, se alcançados, iriam apenas torná-los iguais aos homens heterossexuais, e, portanto, objetivamente, aumentar a opressão das mulheres. Ao invés disso, os homens gays deveriam usar seu tempo “combatendo o seu machismo”, que eles adquiriram por terem nascido homens, e aprender a “desistir de seu privilégio masculino”.

De acordo com essa ideologia, a melhor coisa que os homens gays podem fazer é agir como o “braço masculino” para a liberação das mulheres, recebendo ordens de feministas. E como os homens são o inimigo, homens gays deveriam se alistar como agentes na luta contra os homens e a masculinidade.

Chega dessa ideologia! Talvez alguns de vocês pensaram que eu estava apenas inventando isso tudo ou sendo satírico. Eu asseguro a vocês que a única formulação original na minha descrição foi o termo “extremo abichornado”; todo o resto foi tirado de argumentos correntes de feministas extremas. Podem existir elementos de verdade nessa ideologia, mas a maioria dela é claramente errônea, e seria fatal para a liberação gay adotá-la. Certamente é falso dizer que a opressão dos homens gays é uma coisa trivial. É falso dizer que uma violação aparente dos papeis sexuais é a explicação para nossa opressão; existiram muitas sociedades, antes e fora do círculo Judaico-Cristão, incluindo sociedades supremacistas masculinas com papeis sexuais rigidamente definidos, que mesmo assim não colocaram um tabu no sexo entre homens.

De qualquer maneira, eu não estou convencido de que feministas devem ser eximidas de julgamento crítico. Eu irei tratar de três áreas controversas: a primeira concernente às interrupções e distrações, a segunda à censura, e a terceira ao preconceito feminista contra a homossexualidade masculina.

Interrupções e Distrações


Eu me lembro de vários desses episódios nos primeiros dias da Frente de Liberação Gay, no outono de 1969. Mulheres que nunca tínhamos visto antes entravam e faziam longos discursos contra os homens da FLG; elas diziam que não apenas os homens gays eram mais machistas ou mais chauvinistas que os homens héteros, mas os homens na FLG estavam entre os piores de todos. Essas acusações eram injustas e mentirosas, pois a FLG tem sempre sido solidária à causa da liberação das mulheres, e mulheres sempre tiveram papeis de liderança na FLG desde o início – mas tais acusações
tinham certo efeito desmoralizante. Alguns dos homens sentiram que ao invés de agir contra nossos opressores – por exemplo, piquetear o Village Voice – ou publicar o primeiro jornal de liberação gay, Come out! (Saia do Armário!) – deveríamos voltar nossa atenção para nosso interior para confrontar o verdadeiro inimigo – nós mesmos!



Na primeira conferência gay na Universidade Rutgers, em 1970, o maior painel do último dia foi interrompido por um grupo de mulheres que exigiram que todos os procedimentos fossem paralisados. Elas acusaram o painel de ser “elitista” e “machista” (embora metade dos panelistas fosse mulher); a sua reclamação mais ostensiva foi que numa mesa no hall de entrada, que servia para a distribuição gratuita de panfletos e livros, havia cópias do jornal Gay, nas quais elas encontraram uma reprodução de uma bela, exuberante e reclinada mulher nua, pintada no estilo do Romantismo Clássico. Isso, elas acusavam, tinha sido desenhado para excitar os homens, e era degradante para as mulheres. Negligenciado foi o fato de que a pintura ilustrava um artigo escrito por uma lésbica, e que era muito pouco provável que os editores da Gay pretendessem converter seus leitores homens à heterossexualidade.


Os organizadores da conferência foram cruelmente atacados aparentemente pelo pecado de não policiar e censurar a mesa de literatura grátis. Foi uma interrupção insensata, abusiva e criminosa; o principal organizador da conferência foi reduzido às lágrimas, e as mulheres, bem como os homens no painel passaram a chamar as perturbadoras de “fascistas”, um epíteto que não era usado injustamente. Pela mais capciosa das razões, uma bela e jovial conferência gay – uma das primeiras a existir – tornou-se um pesadelo.

Eu poderia continuar indefinidamente. Imagino que a maioria das pessoas aqui nessa sala  (NT: onde acontecia a conferência) testemunhou ou leu histórias de interrupções similares. Havia a primeira conferência da liberação gay em Edimburgo, em que mulheres encontraram evidência de “machismo” e exigiram que a conferência mudasse seu foco, de reforma legislativa para “confrontar o machismo”. Essas leis, argumentavam elas, afetavam apenas os homens, e, portanto era machista se concentrar em coisas como repelir as leis contra sodomia. A maioria dos homens concordou com essa exigência, e esse foi o fim de uma campanha internacional coordenada para mudar a legislação. É incrível que fosse considerado trivial que, depois de dois milênios, homens gays ainda fossem tratados como criminosos.

Um certo padrão emerge. As pessoas no poder não gostam de movimentos por mudança social. Quando tais movimentos estão em sua infância, elas vão tentar destruí-los ou dividi-los. Quando movimentos aumentam seus números e ficam viáveis, elas irão tentar torná-los inócuos através de cooptação.

Teria sido absurdo para a classe governante mandar alguém para uma conferência anti-guerra que dissesse: “Olhem pra mim, pessoal, eu sou do Conselho de Relações Estrangeiras, e nós não gostamos do que vocês estão fazendo. Os Vietnamitas estão nos dando trabalho suficiente, e não precisamos de problemas internos. Então deixem dessa mobilização. Por que vocês não simplesmente se dividem em pequenos grupos e discutem patriotismo?”

Esse discurso não seria bem recebido.


O que poderia ser feito, porém, seria mandar representantes de “grupos oprimidos” – incluindo negros, mulheres e liberadores gays – para acusar o movimento anti-guerra de ser branco, masculino, classe média, racista, machista, elitista, etc., e para exigir que lidasse com essas questões ao invés de tentar parar a guerra no Sudeste Asiático.

Não acho que devemos ficar paranoicos acerca de interrupções, pois existem sinceramente motivados perturbadores – embora eu pense que se alguém tem algo a dizer e é dada a oportunidade de dizê-lo, interromper é uma tática pobre. Meu ponto é simplesmente que nós não devemos deixar que se desvie o foco da luta, e que nós devemos avaliar as idéias e ações das pessoas pelos seus méritos, não dando a ninguém status privilegiado na base de pertencimento a um “grupo oprimido”.

Com relação aos “silenciamentos” – interrupções designadas apenas para impedir que alguém de falar – eu sou categoricamente contra eles, e isso me leva à segunda área de controvérsia: Censura.

A segunda parte desse ensaio, "Censura", será publicada no próximos dias. A publicação original, em inglês, pode ser conferida aqui

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