Tendências Perigosas no Feminismo - Parte 2: Censura



Olha nós aqui de novo! 

Continuando a tradução do ensaio "Dangerous Trends on Feminism", de autoria de John Lauritsen, apresentado durante a 4ª Conferência da União Acadêmica Gay, em Nova Iorque, 1976, vamos à segunda parte, que trata de uma das estratégias favoritas das feministas: censura. 


Ao longo da sua história, o movimento por reformas sexuais teve de se engajar em uma batalha ferrenha contra a censura. Então é especialmente preocupante ver exigências por censura advindas de setores do próprio movimento.

A situação é séria. A nova censura, avançando sob a bandeira do feminismo, representa uma ameaça ao movimento de liberação gay, ao próprio movimento da liberação das mulheres, e a outros movimentos progressistas. Estou convencido de que o movimento feminista está sendo usado como bucha de canhão para tomar nossas liberdades civis. O alvo imediato para censura feminista ostensiva parecer ser a pornografia – mas a pornografia é um Cavalo de Tróia, atrás do qual está a repressão política. E repressão está no horizonte nos Estados Unidos. A Suprema Corte de Nixon têm cortado diversas liberdades civis; a pena de morte foi restaurada, e deve logo tomar sua primeira vítima depois de quase uma década. A proposta do Senado, S-1, que iria virtualmente repelir a Declaração dos Direitos Civis, está esperando nas ameias; novas ondas de censura têm varrido o país; e em todo lugar o Ministério da Propaganda está criando uma atmosfera de violência e medo, o que justificaria impor medidas emergenciais de Lei e Ordem. Coisas como essa sempre ocorrem em um período de crise política e econômica severa, quando os guardiões do sistema percebem que ele possa estar em risco.

Agora, seria injusto culpar o movimento das mulheres como um todo pelo problema da censura. Apenas um número relativamente pequeno de “feministas” tem sido proponentes e praticantes de censura, e seria ingênuo assumir que todas essas mulheres foram motivadas por um compromisso honesto com o feminismo, especialmente à luz de recentes divulgações de tais programas secretos de polícia como o “Cointelpro”1, do FBI.

Uma líder expoente do feminismo censurador é Susan Brownmiller, autora de Against Our Will: Men, Women and Rape (Contra Nossa Vontade: Homens, Mulheres e o Estupro). Em tributo a ela, eu cunhei o termo “Brownmillerismo”, que eu defino como o uso de histeria sexual, em particular o medo do estupro, como justificativa para repressão. As características principais do Brownmillerismo são a afetação de virtude, intolerância e irracionalidade. Os objetivos imediatos do Brownmillerismo são censurar a pornografia e reduzir os direitos legais dos acusados em casos de estupro, mas se estendem muito além disso. Brownmillerismo ajuda a construir o maquinário de repressão e a criar uma atmosfera favorável à repressão.

Susan Brownmiller, em 1975 Foto: Denver Post/Getty Images
 
O livro de Brownmiller, Contra Nossa Vontade (CNV) teve um sucesso espetacular. Promovido até o talo pela mídia oficial, tornou-se uma seleção do Clube do Livro do Mês e um Best seller. Apesar disso, CNV é um trabalho de má qualidade: ridiculamente impreciso, patentemente reacionário, desonesto e vulgarmente escrito.

Brownmiller retrata o estupro como um perigo onipresente às mulheres, sendo que de fato é um evento comparativamente raro; ela argumenta que as leis contra o estupro são muito lenientes, sendo que de fato a pena para o estupro é quase tão severa quanto para o assassinato, na maioria dos estados; ela clama por uma redução das evidências requeridas para condenação, ainda que muitos homens inocentes tenham sido executados após terem sido falsamente acusados de estupro. Através de protestos, falsificação e exploração de atrocidades, Brownmiller luta para criar uma atmosfera de histeria e desinformação que conduzirá a ataques às liberdades civis, bem como desviar o movimento das mulheres de suas prioridades racionais (de acordo com o New York Times, o estupro se tornou a questão principal do movimento feminista, eclipsando antigas preocupações como o aborto legalizado e igualdade salarial).

Um longo ensaio-resenha meu de CNV e da questão do estupro foi publicada no Gay Liberator (Detroit, Primavera de 1976); eu tenho cópias da resenha aqui, então não vou me estender mais sobre CNV agora. 

É perturbadora a ausência literal de críticas. Dois grandes jornais gays, Gay Community News e The Advocate, não apenas resenharam CNV favoravelmente, mas colocaram uma fotografia de Susan Brownmiller na capa – isso a despeito do fato de que CNV contem óbvio preconceito anti homossexual.

Revisões críticas de CNV, todas escritas por mulheres, foram publicadas na Esquire, Nation, The Militant, People’s World, The Daily World, Women and Revolution e Libertarian Review, mas esses são uma grande minoria comparada aos elogios redobrados pela imprensa oficial.

Até onde eu sei, nenhum pio de crítica ao CNV apareceu na imprensa feminista – um triste comentário à política feminista ou sua capacidade de criticar uma auto-indicada porta-voz.

Um exemplo impressionante de Brownmillerismo em ação ocorreu na cidade de Nova Iorque último fevereiro – um episódio que chamarei de “A farsa do Snuff”

O que aconteceu foi que um rumor começou a circular, de acordo com o qual existe um gênero de filmes conhecido como “snuff”. Filmes “Snuff”, dizia o rumor, eram produzidos para o deleite de homens depravados; eles estrelavam tortura, desmembramento e assassinato reais, de atrizes que de nada suspeitavam.


Poster do Filme "Snuff"

Então um filme estreou na cidade de Nova Iorque, e propagandeando-se como tendo “sido feito na América do Sul, onde a vida é barata”. Nesse momento, o rumor sobre os filmes “snuff” já tinha sido exposto como uma farsa nas páginas de Variety, Screw e o Village Voice. Ainda assim, um grupo de feministas começou a organizar protestos contra o filme, afirmando que a atriz principal tinha sido realmente desmembrada e morta. O rumor foi alimentado de todos os lados. Um panfleto sinteticamente iletrado foi distribuído,começando com o seguinte texto:

“Snuff é um filme feito na Argentina, onde ao menos 18 assassinatos foram cometidos. Não encenados, mas na realidade. Assassinatos. Pessoas estão literalmente sendo assassinadas por lucro.”

Karla Jay, no Villager (26 de Fevereiro de 1976), primeiro afirmou que ela era uma libertária civil “hardcore” e então escreveu: “Então o que me fez ajudar a organizar um protesto, levantar barricadas, e exigir que um filme seja derrubado? Literalmente, assassinato. Sim, mulheres de verdade têm sido desmembradas, mortas e estripadas...”

Levados a acreditar que assassinato real havia tomado lugar, e que, portanto uma questão da Primeira Emenda2 estava envolvida, muitos liberais nova-iorquinos assinaram um telegrama enviado ao Promotor de Manhattan, Robert Morgenthau, que diz:

“Nós cidadãos abaixo-assinados conclamamos o senhor enquanto Promotor de Manhattan a processar e prevenir a apresentação, distribuição e propaganda do filme “Snuff”, que está sendo exibido no Cinema Nacional na cidade de Nova Iorque. O filme exibe o desmembramento e assassinato de uma mulher para o propósito de causar interesse sexual. Como cidadãos nós exigimos a imediata investigação, acusação e remoção desse filme bárbaro de nossa comunidade.”

Alguém poderia ter esperado um telegrama melhor escrito da intelligentsia3 de Nova Iorque, mas a pressão é clara: pede-se por censura, pelo fortalecimento do aparato repressivo do Estado.

Um artigo no Gay Community News (GCN) se regozijou pelo fato de que a lista dos assinantes do telegrama podia ser lida como uma lista de “Quem é Quem” da comunidade do movimento dos gays e das mulheres em Nova Iorque. A primeira da lista era Susan Brownmiller.

Para seu crédito, o Promotor Robert Morgenthau se recusou a processar o filme, insistindo, corretamente, que não havia base legal para fazê-lo. Havia ainda umas poucas vozes da sanidade. A União Americana pelas Liberdades Civis (ACLU) se recusou a concordar com os outrora liberais censores, e em consequência, a própria ACLU foi alvo de ataque. Bella Abzug mandou uma carta para protestar contra os organizadores, na qual ela se disse a favor de fazer piquetes e outros, mas “não poderia concordar com a supressão legal do filme”. “Eu não vou concordar com censura oficial”, Abzug escreveu, “porque eu acho que uma vez estabelecida, nós no movimento das mulheres ou qualquer outro movimento de dissenso seremos sua próxima vítima”

Noe Goldwasser, escrevendo para o Village Voice, continuou a expor a “Delusão Snuff”, mas isso foi de pouca ajuda. Goldwasser escreveu: “o tão chamado filme de assassinato real é uma imitação barata a la Manson, que estava pronta pra ser lançada há três anos... você pode ver mais sangue e tripas em ‘Taxi Driver – Motorista de Táxi’ e mais sexo em ‘Férias no Havaí’”

Os organizadores do protesto aumentaram suas exigências. Já que não havia base legal para processar “Snuff”, eles afirmaram que as mulheres de Nova Iorque estavam indefesas. O necessário era fazer novas leis de censura que iriam proteger as vidas das mulheres. Eles protestaram de acordo. 

Por muitas semanas GCN tratou os protestos “Snuff” como a ação gay número um; foi dada a eles a cobertura de capa aos insultos de pessoas como Lea Fritz, que atacou fortemente a ACLU, e disse coisas como “Nós não achamos que ricos degenerados deveriam poder impingir seu erotismo doente ao resto de nós!”

Uma loucura temporária varreu através da comunidade gay, afetando particularmente aqueles que consideravam a si mesmos “radicais”. Os protestos “Snuff” eram a causa do momento, e criticá-los significava ostracismo. Todos pareciam conhecer um amigo de um amigo que havia visto “Snuff” e jurava que o desmembramento e assassinato eram reais. Eles insistiram que eu não tinha o direito de falar até que eu tivesse pagado 4 dólares e visto o filme por mim mesmo. Isso, felizmente, não foi necessário; era perfeitamente óbvio, olhando aos cartazes do lado de fora do cinema que nada além de efeitos especiais tacanhos foram empregados. O que deveria ser uma mão desmembrada parecia mais com um par de luvas de borracha do R$ 1,99. E ainda assim mais de mil manifestantes iludidos passaram por esses cartazes sem perceber o óbvio.

O rumor custou a desaparecer. Muito tempo depois, quando ele deveria saber melhor, Allen Young, escrevendo para a GCN, descreveu “Snuff” como um filme “no qual uma mulher é assassinada para criar um filme de entretenimento erótico.

Eventualmente, a realidade apareceu. Robert Morgenthau, sob pressão, localizou a atriz que havia sido supostamente desmembrada em “Snuff”. Ele encontrou-a de bom humor e em suas palavras, “na posse de todas as suas extremidades”.

A Revista Majority Report, que havia ajudado a alimentar o rumor de que se tratava de um assassinato real, foi forçada a engolir a própria língua. Um longo artigo por Mary Lou Fox (MR 6-20 Março, 1976) expôs a farsa, colocando a culpa pela difusão do rumor em todos exceto os organizadores do protesto. O filme “Snuf”, ela informou seus leitores, havia sido feito em Buenos Aires quatro anos atrás, por meros 33 mil dólares, e por uma equipe formada de marido e esposa! A cena de três minutos de desmembramento foi filmada depois.

Uma sentença no artigo de Fox foi para mim pungente: “A veracidade da história do filme Snuff parecia indisputável, pois vinha de diversas fontes ao mesmo tempo.”

A Nolder apresentou uma opinião dissonante na GCN; ele resumiu assim a questão: “O filme ‘Snuff’ é uma questão gay? Não, mas censura é...e distorcer a Declaração de Direitos nas ondas de uma paixão imediata é, e aumentar os poderes da promotoria é.”

Não há dúvida de que “Snuff” foi um filme realmente ruim, e ofensivo para as mulheres (embora filmes ainda mais ofensivos estivessem sendo exibidos à época). Eu penso que as mulheres deveriam protestar contra o preconceito misógino – mas sucumbir à propagação de rumores e histeria, e clamar por censura oficial é jogar o jogo do inimigo. Se alguém se opõe à censura, então deve fazer oposição mesmo quando o objeto de censura é algo que considere ruim e ofensivo.

Talvez a História vá agrupar a farsa “Snuff” junto a outros episódios como a ilusão dos Discos Voadores ou o pânico da Guerra dos Mundos4; se alguém aceita, como eu, uma interpretação mais sinistra, a História irá classificá-la junto a fabricações como os “Protocolos dos Sábios de Sião”, ou a atribuição do Incêndio do Reichstag5 aos Comunistas.

Uma amostra de onde o Brownmillerismo e histerias do tipo snuff foi providenciada apenas umas semanas depois, em Chicago. No dia 26 de maio, um novo conselho de censura foi criado para lidar, ao menos no início, com filmes violentos. A inspiração imediata para a lei anti-violência do Prefeito Daley, de acordo com um artigo no The Guardian, foi a reação do público a “Snuff”. Membros do Conselho de Censura foram todos apontados pelo Prefeito, tendo em média 67 anos de idade e sua maior qualificação parecia ser que elas eram viúvas de políticos da máquina do Partido Democrático. 

O artigo de The Guardian torna claro que é o radicalismo político, ao invés da violência, que Daley está preocupado em censurar, e que o Conselho, se não controlado, poderá estender o seu mandato. “O Prefeito Daley disse aos repórteres que o tipo de filme que tinha em mente quando propôs o regulamento foi ‘Dias de Fogo’, uma produção de ficção por Haskell Wexler, que incluía uma cena da polícia (no mandato de Daley) batendo em manifestantes da Convenção Democrática de 1968, em Chicago”.

O feminismo de censura também teve um papel dentro do movimento de liberação gay. Eu já descrevi o incidente na primeira conferência em Rutgers.

Na União Acadêmica Gay, algumas feministas têm exigido que painéis sobre sadomasoquismo, pederastia e travestismo não sejam admitidos em conferências, e usualmente, suas exigências têm sido atendidas. Uma apresentação erudita sobre o Marquês de Sade foi censurada ano passado – feministas acreditavam que iria defender o sadismo, e que isso não podia ser permitido.

Esse tipo de censura – a censura de ideias – é ofensivo a qualquer pessoa com integridade. Se formos opostos às ideias de alguém, então deveríamos trazê-lo ao debate e contrapor suas ideias com as nossas – assumindo que tenhamos algo a dizer. Isso é conhecido como diálogo, e é através do diálogo que a verdade emerge.

Esse ano, no Comitê do Dia da Liberação da Rua Christopher6, algumas mulheres (falando em nome de todas as mulheres) apresentaram uma série de exigências. Primeiro, mulheres deveriam marchar na frente da parada, para compensar o que chamavam de “invisibilidade lésbica”. Segundo, metade dos mestres de cerimônia e palestrantes deveriam ser mulheres (na verdade, têm sido sempre desse jeito). Terceiro, todos os carros alegóricos e palestrantes deveriam ser aprovados por um comitê, que iria censurar tudo que fosse considerado culpado de “machismo”, “racismo”, “classismo” (o que quer que seja isso), e talvez alguns outros “ismos”. O principal temor dessas mulheres é que pessoas fingindo serem mulheres fossem admitidas, nos carros ou nas palestras.

Por muitos anos agora, drag queens têm sido alvos especiais da raiva feminista. Nós homens gays temos sido forçosamente levados a acreditar que se nós concordamos com a liberação feminina, temos de denunciar e repudiar tudo e todos que tenham algo a ver com drag. A censura feminista afirma que drag oprime as mulheres – que é uma paródia das mulheres, misoginia, e uma forma de preconceito. Se alguém acha que estou exagerando a posição feminista, então insisto para que leiam um artigo na GCN (de 20 de novembro de 1976), por Karen Lindsey. Lindsey, que se identifica como mulher hétero, profere um ataque rancoroso contra drag queens, e no processo engaja em um mais modesto preconceito contra homens gays. Ela compara se vestir de drag com “assédio sexual”, cafetinagem, estupro e violência doméstica.

Fiquei fascinado por uma sentença dela; ela escreve: “Mas quando homens se vestem com saltos altos, strass, meia-calça e vestidos com enchimentos de busto, não há espaço para dúvidas – ou para tolerância.”

Eu tenho duas perguntas para a Sra. Lindsey. Número um: “Você diz que não há espaço para tolerância. Podemos saber especificamente que formas de intolerância você apoia?” Número dois: “Você acredita que a Mulher, o eterno feminino ou o que quer que seja, se resume a tais coisas como saltos altos ou strass?”

Chegou o tempo de defender travestis. No nível da liberdade individual, eu diria que se mulheres têm o direito de se vestir como drag queens, então que drag queens tenham o direito de se vestir como mulheres. Muitos estados e comunidades ainda possuem leis proibindo o cross-dressing7, e pouco tem sido fito para acabar com esses absurdos medievais. Além disso, eu creio que devemos questionar se há alguma justificativa para a atual vendetta feminista contra drag queens.

Agora, a questão dos travestis não é simples. Superficialmente, é verdade que a maioria dos travestis é hétero; é também verdade que a vasta maioria dos homens gays não possui desejo algum de colocar roupas de mulher, e que são ao menos tão “viris” quanto a média, exclusivamente homens heterossexuais (embora talvez menos rigidamente “masculinos”). 

Por outro lado, também é verdade que as drags têm sido por muito tempo parte da subcultura gay. Quando homens gays se juntam para uma ocasião realmente divertida e especial – agora, bem como nos séculos 19 ou 18 – fantasias e drag fizeram parte das festividades. Drag e drag queens são parte do mundo gay como conhecemos, quer gostemos ou não. Pode-se acreditar que o mundo gay como conhecemos é parte de nossa opressão, e eu concordo, até certo ponto. Mas sugiro que ao projetar um futuro mais liberal, há o perigo de se cair no puritanismo no presente.

Por que drag? Bom, homens gays têm um senso de humor, um senso de humor único, conhecido como “bichice”8; é parte da nossa herança. E no coração da “bichice” está fazer troça da situação em que estamos, nosso dilema enquanto homossexuais. E a “bichice”, entre outras coisas, inclui uma troça dos papeis sexuais, uma troça dos tabus, uma troça do perigo, uma troça da condenação.

Se os homens gays sobreviveram à pior opressão que a Cristandade teve a oferecer, devemos algo à bichice. Pela maioria da era Cristã, a Igreja e o Estado não reconheciam nosso direito de viver – nem mesmo nosso direito de existir. E ainda assim os homens gays que escaparam do carrasco frequentemente saíam mais fortes e criativos que os héteros. Eu gosto de acreditar que mesmo nos calabouços da Inquisição, homens estavam fazendo bichice. Gosto de acreditar que mesmo nos campos de concentração Nazistas, os homens com o triângulo rosa9 davam coragem um ao outro através da bichice.

Drag é considerada uma forma de bichice, e é. Drag é a troça mais extrema dos papeis sexuais, a mais extrema exposição do quão arbitrária a maior parte das divisões entre homens de verdade/mulheres de verdade é. Por certo, há diversos níveis de bichice, e boa e má bichice. Mas, no seu melhor, drag é uma forma muito boa de bichice.

Feministas argumentam pelo contrário, que as paródias das drag queens não são de mulheres, mas de culturalmente ditados papeis sexuais – papeis sexuais que são, por si sós, opressivos às mulheres. No todo, por demonstrar a arbitrariedade e o absurdo dos papeis sexuais tradicionais, personificadores de mulheres, longe de ser opressivos às mulheres, podem servir na verdade como criadores de consciência ajudando a liberação das mulheres. 

Creio que um pouco da raiva feminista contra travestis pode ser explicada por uma negação do elemento de opressão internalizada envolvida em atuar com papeis sexuais tradicionais. Até o momento, liberadores gays
têm sido bem mais propensos a analisar as maneiras com que contribuímos para nossa própria opressão; de imediato, o Manifesto Gay de Carl Wittman e With Downcast Gays vêm à mente. A mística feminina, de Betty Friedan e os protestos contra os concursos de Miss América parecem promover uma análise feminina de opressão internalizada, mas ultimamente o movimento feminista optou por uma espécie de falso radicalismo do tipo “os-homens-são-o-inimigo-e-ponto-final”.

Karen Lindsey, no seu artigo para a GCN afirma que as mulheres adotam papeis sexuais tradicionais e se vestem do jeito que se vestem, apenas porque são forçadas a fazê-lo pelos homens; nas suas palavras: “São os homens que determinam o que é a roupa apropriada para homens e mulheres, reservando para eles o que é funcional e assinalando às mulheres estilos que conformam com a fantasia masculina e necessidade de poder.”

Eu acho isso difícil de acreditar. Com certeza as mulheres têm alguma responsabilidade pelas suas ações. Os homens realmente forçam as mulheres a usar strass? Saltos altos? Parece para mim que qualquer mulher que esteja determinada pode entrar numa loja e comprar um par de calçados confortáveis. Quem as força a comprar saltos altos? Os homens realmente gostam de andar com uma mulher cambaleante, como se estivesse mancando? Da mesma forma, se as mulheres são oprimidas pelos cosméticos, então eu sugiro que a liberação está ao alcance da torneira mais próxima, com a ajuda de um pouco de água e sabão.

Agora, quem deveria se sentir ofendido por drag queens? Mulheres? Quantas mulheres já sequer viram uma drag Queen? Se elas viram uma, o que aconteceria? Elas sofreriam? O único grupo de travestis que realmente faz mal aos outros são travestis eclesiásticos – ou seja, padres, bispos, cardeais e papas – mas até o momento as feministas têm mostrado pouca inclinação a atacar o travestismo eclesiástico.

Se alguém deveria se sentir ofendido por drag queens, seria um homem gay, como eu costumava acreditar. Desde que a imagem estereotipada de um homem gay é um homem que quer agir como e se parecer com uma mulher, eu acreditava que drag queens tendiam a reforçar o estereótipo.

Eu mudei minha opinião. Se, para usar o termo de Menken, “Americanos Debilóides”10, desejam acreditar no estereótipo, eles irão fazê-lo, com ou sem a ajuda de travestis. Eu agora acredito que travestis não apenas devem ser tolerados, mas encorajados a fazer como quiserem. Se eles querem se vestir desse jeito e continuar a fazê-lo, porque não? Só se vive uma vez. 

Nos primeiros dias da Frente de Liberação Gay, tomamos a decisão que travestis deveriam se sentir bem vindos como todos os outros. Ao contrário do movimento “homófilo”, nós não estávamos tão preocupados com a respeitabilidade que estávamos dispostos a virar as costas aos nossos irmãos e irmãs gays.

Quando eu adentrei o mundo gay, muitos anos atrás em Boston, eu passei um tempo difícil, embora eu tivesse certas vantagens. Foram as drag queens numa cafeteria decadente de Boston, o “Bick”, que primeiro me fizeram rir das coisas que atormentavam minha adolescência. Eu chorava de rir – e depois disso ficava mais fácil. Eu expandiria o aforismo Nietzscheano para dizer: “Oh, meus irmãos: Abichornem-se! E pra valer!”11.

Eu também conheci homens jovens sensíveis que não tiveram as vantagens que tive – que tiveram de fugir de pais que os batiam e mães que os amaldiçoavam – que não eram intelectuais – que não tinham recursos além de uma súbita vontade de serem eles mesmos. Eles não sabiam o que significava ser “gay”, então eles arrancavam as sobrancelhas, ou colocavam perucas; eles usavam um brinco, ou um colar; eles manchavam sua pele com maquiagem; ou usavam algo que os colocavam além da palidez masculina normal. Eles eram ingênuos. 

Geralmente a fase passava, especialmente se eles foram sortudos o suficiente para arranjar um amigo ou amante que os aceitassem como eles eram essencialmente, sem a extrema encenação de papeis ou apetrechos de macho ou fêmea.

Assusta-me pensar que um homem tão jovem, assaltado por dúvidas e medos, encarando armadilhas e perigos por todos os lados, possa ser sujeito a mais crueldade por homens gays influenciados por censoras feministas. Devemos ser firmes. Não apenas devemos rejeitar sem qualificação o argumento de que drag queens oprimem as mulheres, devemos ter certeza de que nenhum dos nossos irmãos está sendo machucado através de malícia instigada pelas censoras feministas. Nosso jeito de viver não é da conta delas.

Nesse ponto, estou certo que estamos cansados de censura. O que é realmente nojento sobre as feministas censoras é que elas pisoteiam na memória de muitas mulheres nos movimentos de pensadores livres e de reforma sexual que corajosamente batalharam contra a censura no último século. Pode-se pensar em mulheres como Annie Besant, Margaret Sanger, Martha Ruben-Wolfe, Emma Goldman. Como elas ficariam chocadas em ver as coisas agora sendo feitas sob a bandeira do feminismo!

Proibir e censurar serão a morte do nosso movimento. Nossa luta é para fazer com que nossas próprias ideias sejam ouvidas, não suprimir as ideias dos outros. Eu compartilho da fé de Thomas Paine, que concluiu o seu Age of Reason dizendo: “Quando opiniões são livres, seja em matéria de governo ou religião, a verdade irá finalmente e poderosamente prevalecer."

Em breve, a última parte do ensaio: Preconceito Feminista contra a Homossexualidade Masculina

Notas do tradutor 

1 - O Programa de Contra Inteligência (COINTELPRO) foi um programa secreto do FBI criado por J. Edgar Hoover, implantado e executado entre 1956 e 1971. Objetivava desestabilizar grupos de ativistas e dissidentes políticos nos EUA e realizavam operações ilegais, como incêndios provocados e até assassinatos, em nome da Segurança Nacional. (fonte:https://pt.wikipedia.org/wiki/Programa_de_Contraintelig%C3%AAncia)
2 – A primeira emenda americana visa prevenir o governo de criar leis que restrinjam aliberdade religiosa, de pensamento e de imprensa, e reclamações e petições dos cidadãos aos órgãos governamentais, entre outras.
3 – “O termo intelligentsia usualmente refere-se a uma categoria ou grupo de pessoas envolvidas em trabalho intelectual complexo e criativo direcionado ao desenvolvimento e disseminação da cultura, abrangendo trabalhadores intelectuais.” (fonte:https://pt.wikipedia.org/wiki/Intelligentsia)
4 – A dramatização via rádio, do livro “A Guerra dos Mundos”, de H. G. Wells, causou certo pânico coletivo, pois diversas pessoas acreditaram se tratar de uma transmissão real de invasão alienígena. A escala do pânico é contestada, porém, dado o alcance relativamente diminuto do programa. (fonte: https://www.dw.com/pt-br/1938-p%C3%A2nico-ap%C3%B3stransmiss%C3%A3o-de-guerra-dos-mundos/a-956037)
5 – O Palácio do Reichstag era o local de encontro do parlamento alemão. Foi incendiado em 1933 e esse ato foi creditado a comunistas e supostamente utilizado para criar uma “conspiração anti-comunista”. Embora a responsabilidade pelo ato seja até hoje contestada, alguns historiadores apontam esse acontecimento como crucial para o estabelecimento do nazismo na Alemanha.
6 – Celebrações/demonstrações LGBT que acontecem anualmente em várias cidades da Europa.
7 – Também chamado de transformismo, é o ato de alguém se vestir com roupas e adereços associados ao sexo oposto.
8 – No original, “camp”. Não sei dizer se existe um termo correspondente em português, então usei “bichice”.
9 – Um símbolo utilizado para marcar os homossexuais condenados aos campos de concentração nazistas.
10 – No original, Boobus Americanus. Henry Louis Mencken (1880-1956) foi um jornalista americano. Criou o termo para designar a classe média americana que via como largamente ignorante, crédula e certinha. (fonte: https://www.infoplease.com/encyclopedia/people/arts/american-lit/mencken-h-l)
11 – Nietzsche frequentemente utilizava a expressão “O my brothers!” (Oh, meus irmãos!) em
seus escritos.


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