O valor dos homens, além da reprodução
Olá, caros irmãos!
Eu não pretendia voltar a
referenciar ou discutir pontos deixados, ainda que parcialmente, “em
aberto” no meu descabaço podcástico. Mas estava a ler este artigo
na AVFM em inglês e lembrei-me de uma das perguntas feitas pelos
inscritos, em especial pelo Renan Rocco (que a propósito foi um
ótimo questionamento, levando a uma boa dose de reflexão).
A pergunta, resumidamente, era a seguinte: se eu,
enquanto homem gay, concordaria em ter menos direitos civis sociais caso
houvesse um retorno de uma sociedade com valores patriarcais, como a
Roma Antiga. Tendo os direitos individuais garantidos em contrapartida aos deveres individuais, porém com menos direitos coletivos/sociais, por conta do fato de não se reproduzir, e portanto não contribuir tanto quanto aqueles que o faziam.
Refleti um pouco (dentro do
possível, claro, lembrem-se de que reportar a uma audiência, ainda
que virtual, é complicado para um introvertido como eu) antes de
responder que há outras maneiras de um homem contribuir para a
sociedade, além da reprodução: homens podem ser, além de pais e
chefes de família: professores, construtores, inventores, soldados,
médicos, etc.
Embora a resposta pareça ter
contentado, um tempo depois o questionamento ressurgiu, citando a
equivalência entre direitos e deveres (alguém que não tivesse os
deveres inerentes da formação e manutenção da família, por
exemplo, não deveria fruir dos mesmos direitos que aqueles que os
têm), bem como a noção um tanto simplista que o poder nessas
sociedades advinha de duas (e apenas duas) fontes: a família e o
Estado.
Sinceramente, encontrei certa
dificuldade de responder à questão nesse contexto. Em retrospecto,
questiono essa simplificação (além da família e do Estado, diria
que também o indivíduo e comunidade, entre outros, exerceram poder
nas sociedades antigas). Há também que se considerar que boa parte
dos direitos que tinham esses homens que formavam família
advinha da responsabilidade que decorria da formação e
manutenção da família. Sem família, sem esses direitos (e deveres
que deles derivavam).
Sustentei, novamente, o valor de
outras atividades, além da reprodução, que agregam valor à
sociedade.
Ademais, ainda considerando a
possibilidade do retorno dessas tradições antigas, ficam algumas
perguntas: eu teria escolha? Os homens gays da antiguidade tinham
essa escolha? Eles não eram obrigados a se conformar, e engajar na
reprodução (e no casamento, e na formação de família) se
quisessem manter algum nível de status? E por fim:
Será realmente desejável um
retorno a essas tradições (exatamente como o eram, sem as
contribuições posteriores do iluminismo, humanismo e etc.)?
Enfim, essas questões são todos
excelentes aquecimentos para estudo, reflexão profunda e discussão,
mas não o tema principal deste texto. O fato é que encontrei, no
texto linkado da AVFM, escrito pelo Peter Ryan (não confundir com o
igualmente excelente Peter Wright), alguns paralelos ao tema, embora
Ryan tenha se concentrado mais na questão de valor masculino
biológico e evolucionário, e não no aventamento de uma hipótese
de transformação social.
A seguir traduzo uma parte do texto
dele, mas recomendo aos anglófonos a leitura do artigo completo:
“O conceito de cuidado aloparental
é um exemplo importante a se considerar nesse contexto. Na nossa
espécie, adultos tomam conta de crianças, quer tenham ou não
relação de parentesco com elas. Irmãos, tios e primos, etc, que
podem não se reproduzir, podem cuidar dos parentes (o que era ainda
mais o caso em nosso passado histórico e pré-histórico).
Professores homens podem educar crianças sem parentesco algum com
eles. Os homens operando nossa infra-estrutura e utilidades básicas
provêem serviços essenciais que torna possível que as pessoas,
parentes ou não, tenham acesso a eletricidade, comida, água,
abrigo e provisões básicas. Os homens operando nossa força militar
e serviços de emergência, protegem e tomam cuidado de parentes e
não-parentes. Os homens inventando, desenhando, construindo e
mantendo nossa tecnologia, infra-estrutura e construções, asseguram
que nossa economia continue a aquecer e sua inovação assegura a
prosperidade de nossas sociedades. Tudo o que estou descrevendo,
direta ou indiretamente, aumenta as chances de sobrevivência e
prospectos reprodutivos de parentes desses homens ou não-parentes
com quem eles compartilham genes. A lista continua. Esses exemplos
são uma amostra pequena de atividades alternativas à reprodução
que podem contribuir com o sucesso evolucionário ou aptidão total
de homens individuais, e permitem que homens que não se reproduzem
passem os seus genes indiretamente, através de outros indivíduos.
(…)
A realidade é que homens sem
filhos, ou celibatários, ou homossexuais, que não desejam
relacionamentos heterossexuais existem, e existiram através da
história. Por quê? Os genes desses homens foram passados através
de outros parentes ou indivíduos geneticamente similares. Tome
a religião como exemplo ilustrativo. O Dr. Brett Weinstein em
uma discussão com o Dr. Richard Dawkins apontou que embora os homens
do clero possam não se reproduzir, sua contribuição com sua
religião pode ter indiretamente promovido seus genes. Ao ativamente
promover sua religião, eles podem encorajar comportamentos e
práticas que possam ter aumentado o sucesso evolucionário de seus
parentes e indivíduos em suas comunidades, com quem eles
compartilhavam similaridade genética.
Podemos ir adiante e contar uma
longa lista de homens famosos como Wilbur Wright, Nicola Tesla e
Isaac Newton, que nunca se casaram ou se reproduziram, mas fizeram
contribuições massivas à sociedade que levaram a mudanças
tecnológicas que tornaram possível que o tamanho da população
tenha aumentado de um para sete bilhões de pessoas, em apenas alguns
séculos. Há muitos homens desconhecidos que nunca se reproduziram
que ajudaram a construir e manter todas as nossas ruas, canais,
ferrovias, aviões, navios, numerosos exemplos de infra-estrutura e
construções que todos nós usamos diariamente. Há homens
desconhecidos, que nunca se reproduziram e que trabalham a terra e
transportam nossa comida aos supermercados. A Civilização depende
de um esforço coordenado e massivo de atividade masculina para
suprir o tamanho atual da população e que, portanto, ajuda o
sucesso evolucionário. Esse efeito de suporte e reforço de
atividade masculina no sucesso evolucionário também foi verdade em
nossa pré-história, antes da civilização. Reprodução não é o
único fator contributivo para o sucesso evolucionário. “
Ele continua, afirmando nos
parágrafos seguintes (e no segundo artigo da série) afirmando o
valor intrínseco da vida humana, independente do gênero e sucesso
reprodutivo.
No final, será que não é possível
resgatar alguns dos bons valores antigos, juntá-los aos mais
recentes e construir algo que jamais foi visto, e com potencial
tremendo de evolução social?
Isso, é claro, se o Fempocalypse
não chegar antes.
Feminismo Delenda
Est!




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