Elevatorgate e Atheism Plus: A Balada de Twatson



Olá, caros irmãos!
Continuando com os temas abordados, mas não aprofundados na live que representou meu descabaço podcástico, falemos hoje sobre esses dois interessantes eventos.
Pode-se dizer que o movimento neo-ateísta tomou forma logo após os ataques terroristas de setembro de 2001, embora o Christopher já desse seus hitchslaps houvesse algum tempo, e outros ateus como Dawkins e Harris já fossem conhecidos e polêmicos, à época. Esse movimento baseou-se em três características basilares:
  1. Atitude mais “confrontativa” com relação às ideologias religiosas – a motivação, ainda que parcialmente, religiosa dos ataques de 11 de setembro exaltou-os a serem mais abertamente críticos com relação aos aspectos das religiões que podem levar ao fanatismo irracional;
  2. Ceticismo: questionamento de crenças baseado no conhecimento científico e em evidências empíricas. O movimento fundiu-se, de certo modo, ao já atuante movimento cético; e
  3. Uso da internet como mídia de comunicação em massa, para propagação de idéias e criação de um senso de “comunidade”.
A primeira dessas características, no entanto, acabou atraindo pessoas que tinham rusgas com as instituições religiosas (em geral cristãs), como pessoas LGBT e feministas, que não estavam particularmente interessadas em estender o crivo do ceticismo às suas ideologias favoritas. Ansiosos por parecerem progressistas e diversificados, os membros da crescente comunidade abriram os braços a essas pessoas, permitindo a sua eventual cooptação.
Assim, embora as sementes de um cisma já estivessem plantadas, foi o evento conhecido como “Elevatorgate” que o fez visível.
Nossa história começa com a Conferência Mundial Ateísta de 2011, em Dublin, na Irlanda. A jornalista britânica Paula Kirby foi convidada a participar de um painel chamado “Mulheres no Ateísmo”, e quando questionada sobre a razão de existirem tão poucas mulheres no movimento ateísta, e sobre o que deveria ser feito pra mudar isso, respondeu:
“(...) Ouvimos continuamente essa ideia de que as mulheres estão sendo desencorajadas pelo ateísmo, pois os nomes que ouvimos, e os rostos que conhecemos são nomes e rostos masculinos. E tenho de dizer que, em minha perspectiva, considero isso um insulto às mulheres. Pode até ser que seja verdade, e seria interessante saber a que ponto as mulheres realmente se sentem desencorajadas a participar, mas pra mim isso conjura uma imagem de mulheres que estão tão assustadas, nervosas e fracas, e tão intimidadas pelos homens.”
(...)
“Agora, eu vejo como isso seria diferente, e eu argumentaria de maneira diferente, se eu tivesse visto qualquer coisa sugerindo que as mulheres estão sendo deliberadamente impedidas de participar pelos homens no movimento. Tudo o que posso dizer é que nos meus anos como parte de tudo isso eu não vi nada sugerindo isso. Certamente não sinto que nenhum dos homens nesta sala ou em qualquer outro lugar esteja me contendo... na realidade é justamente o contrário: penso que justamente por existir essa percepção de que não há mulheres suficientes, nesse campo e em outros, às vezes podemos alcançar grande proeminência simplesmente pelo fato de sermos mulheres e uma raridade nesse sentido. “
(...)
“Penso que as mulheres são freqüentemente relutantes em dar sua opinião, e vejo isso continuamente em reuniões e conferências, e mesmo observando aqui a porção de mulheres fazendo perguntas e mesmo contribuindo para o desequilíbrio na audiência, pois como uma organizadora de eventos eu sei o quão é difícil fazer com que as mulheres participem. Mas penso que, mulheres, nós temos simplesmente de respirar fundo e fazer isso, não sermos tímidas e contidas. Pois se sentimos que estamos sendo ignoradas, então somos nós que devemos encontrar maneiras de ter certeza de que não seremos, e aprender a falar mais claramente. E não acho que devemos exigir igualdade e então pedir por tratamento especial.”
Paula Kirby

Uau!
Bem, isso não caiu bem nos ouvidos de muitas das feministas presentes, em especial de certa jovem conhecida como Rebecca Watson. De acordo com certos registros, ela não adentrou o movimento cético como feminista em uma tentativa de cooptá-lo, mas conheceu essa ideologia depois (provavelmente durante sua graduação em Comunicações, que foi e ainda é um antro feministóide).
Rebecca Watson: óculos corretivos e gatos não fazem uma feminista, mas são bons indicadores 

Falando num painel diferente, titulado “Comunicando Ateísmo”, ela combateu as impressões pessoais de Kirby com as suas próprias, afirmando que existia sim um problema com machismo no movimento, embora não apresentasse provas dos exemplos que afirmava que existiam aos cântaros.
Retornando à sua terra natal, os Estados Unidos, Rebecca postou um vídeo no qual narrava um incidente que até hoje muita gente questiona se realmente aconteceu: estava ela com uma turma bebendo no bar do hotel que hospedava o evento, de madrugada, quando anunciou que estava cansada por demais e iria ao seu quarto puxar um ronco. Foi até o elevador, até o qual um homem a seguiu e disse: “Não tome isso de maneira errada, mas eu acho você muito interessante, e gostaria de conversar mais; Você não gostaria de vir até o meu quarto pra tomar um café”?

Ela não se estendeu muito nisso, mas supõe-se que ela disse não e cada um deles seguiu seu caminho. Concluiu aconselhando os homens a não fazer isso, “acossar” uma mulher no elevador e “sexualizá-la” dessa maneira. E denunciando, novamente, o machismo no meio ateísta.
Muitos na comunidade ouviram isso e consideraram um exagero, mesmo alguns que eram superfãs da moça, mas não se olvidavam de criticá-la pelos seus atos quando achavam necessário.
Uma dentre esses, a estudante Stef McGraw, membro do grupo secular estudantil UNI Freethinkers and Inquirers, na Universidade do Nordeste de Iowa, escreveu assim em um post no site do grupo:
“Desde quando respeitar mulheres como iguais e mostrar interesse sexual são mutuamente exclusivos? Que há de errado nisso? Não somos seres sexuais?”
Becky Twatson resolveu que isso não ficaria assim, e numa conferência em que achava provável que encontraria McGraw, apresentou seu post junto a outros exemplos de hate mail que alegadamente recebeu, alegadamente vindo de outros ateus.
O bafafá resultante colocou os defensores de Watson e os defensores de McGraw em lados opostos, esses últimos questionando o método que Watson utilizou (ao invés de responder blog post com blog post, chamou a atenção da moça em uma conferência, na frente de diversos colegas dela, e comparando seu criticismo inócuo com insultos infantilóides e ameaças de estupro).
Eventualmente, em resposta a uma postagem no blog Pharyngula, de autoria de Paul Zachary Myers (um dos defensores de Watson), o biólogo e escritor Richard Dawkins resolveu tratar a questão como problema de mulher de primeiro mundo que era e comentou:
“Querida Muçulmoça
Pare de reclamar, minha cara. Sim, sim, eu sei que você teve seus genitais mutilados com uma navalha, e ... yawn, que sono ... não me diga de novo, que você não pode dirigir um carro, e não pode sair de casa sem um parente masculino, e o seu marido pode bater em você, e você será apedrejada até a morte se cometer adultério. Mas pare de reclamar, pense no sofrimento que suas pobres irmãs americanas têm de agüentar.
Só nessa semana ouvi falar de uma, ela chama a si mesma “Guria Cética”, e sabe o que aconteceu com ela? Um homem num elevador de hotel convidou-a a entrar no seu quarto pra tomar café. Não estou exagerando, ele realmente fez isso! Convidou-a pra tomar café no seu quarto. Claro que ela disse não, e claro que ele não encostou num fio de cabelo dela, mas ainda...
E você, muçulmoça, acha que tem de reclamar de misoginia! Por deus, cresça e apareça, ou ao menos endureça essa pele.
Richard”

Ok, Rickyboy padece do mesmo mal que muita gente, que acha que a vida dos homens e meninos no islã é um parque de diversões e privilégios sem fim, e apenas as mulheres têm a reclamar da violação de seus direitos civis.
Estava instalada a guerra civil na blogosfera ateísta. Teve até gente propondo boicote dos livros dele. Seriously. O blogueiro e youtuber Justicar, ateu, gay e “MRA friendly”, fez sua a missão de encontrar podres da menina Becky. E não precisou procurar muito. Entre outras coisas:
  • Becky reclamava de objetificação, enquanto vendia calendários em que se mostrava em poses eróticas;
  • Quando participou do fórum da Fundação James Randi, Becka havia sido banida por usar uma conta fantoche, e quando readmitida, foi por engano presenteada com privilégios de moderador. Tais privilégios ela usou pra banir todo mundo de que ela não gostava; e
  • Quando apresentada a uma foto tirada durante a madrugada de bebedeira de que participou pouco antes do alegado incidente do elevador (e que provavelmente incluiria o suposto “assediador”), afirmou que não conseguiria reconhecê-lo de qualquer maneira por possuir uma doença chamada prosopagnosia, que a impedia de reconhecer faces. Em outras ocasiões, porém, não demonstrou possuir essa limitação.
Um ano depois as tensões e o abismo entre essas facções estavam ainda mais evidentes, então outra feminista, Jen McCreight, numa postagem em seu blog Blag Hag, colocou a idéia d criar um “novo” novo ateísmo: um ateísmo que não se limitasse à ausência de crença em divindades, mas que se preocupasse com questões ligadas à justiça social. Um dos primeiros comentadores na postagem sugeriu um logo para esse novo movimento: A+ (plus).
Originalmente, o Atheism+ era pouco mais que um logotipo. As políticas e metas seriam estabelecidas depois, na base do ad hoc. Ironicamente, porém, o logo original não foi muito bem pensado, pois poderia ser lido como A+theism (A+teísmo), e foi quase que imediatamente alterado.


Rapidamente a ideia ganhou tração entre aqueles céticos que não eram tão céticos quando o assunto era o feminismo e ideologias derivadas. Os seus opositores foram classificados como Asshole Atheists (algo como ateístas cuzões), e uma linha foi traçada, especialmente em um discurso realizado pelo Dr. Richard Carrier, que assegurou tratar-se de uma questão de nós (os céticos não tão céticos) versus eles (os céticos).
Eventualmente, ficou clara até para alguns de seus apoiadores a natureza divisiva desse novo movimento, e ele foi relegado à lixeira da história do movimento cético-ateísta.
Daí, porém, já era tarde demais. O feminismo já havia cooptado o movimento: suas conferências passaram a adotar políticas “anti-assédio” e pessoas que tivessem mais pontos de opressão passaram a ter mais voz do que outras. Assim como aconteceu posteriormente com as comunidades nerds (games, HQ’s, RPG, etc.), uma boa porção de ateus já estava assimilado à consciência coletiva.
Como falei na live com os MGTOWs, foi nessa época que eu passei a me envolver com esse movimento, e foi minha aliança com o “outro lado” (o lado que não eximia o feminismo e outros de uma análise cética) que me levou a conhecer o Movimento pelos Direitos dos Homens e Meninos.
Em conclusão: o ateísmo é um posicionamento singular diante de uma questão singular: a crença na existência de deus (es). Desacreditar ou acreditar não lhe dá superioridade intelectual ou moral, e não te torna mais “sensível” a grupos minoritários/"oprimidos". Querer imputar características extras baseado apenas nesse detalhe (crença ou descrença) é extremamente desonesto.
Não possuo mais religião, e ela não faz falta pra mim. Outras pessoas a vêem como fundamental para suas vidas, e eu respeito essa posição. De certa maneira até as invejo. Conquanto não venham querer ditar como eu devo viver minha vida, de acordo com os ditames de suas ideologias (religiosas ou não), podemos viver em relativa harmonia com respeito mútuo.
No próximo post, último desta série, falarei sobre o Modelo Duluth de violência doméstica.
Amplos amplexos, irmãos!
Feminismo Delenda Est!




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