Resenha - O Mito do Poder Masculino - Porque os Homens são o Sexo Descartável - Warren Farrell
O Mito do Poder Masculino é um clássico (publicado pela primeira vez em 1993) escrito por Warren Farrell, e é um livro absolutamente necessário para qualquer um que queira aprender acerca das questões que afetam os homens e meninos. Para os defensores dos direitos dos homens e meninos, é livro de cabeceira.
Ouvi falar de Warren Farrel pela primeira vez em vídeos da menosfera que mostravam os protestos feministas que ocorreram quando ele quis apresentar sua palestra sobre o suicídio masculino na Universidade de Toronto, no Canadá. A falta de sensibilidade demonstrada pelos protestantes à vida e à segurança humanas (ao impedir a entrada e saída de pessoas – a tragédia na Boate Kiss ainda está fresca o suficiente na memória dos brasileiros para que nós saibamos porque isso é uma má ideia), o desconhecimento total do trabalho do escritor (que está longe de ser um misógino defensor do patriarcado), etc., enfim, todos os comportamentos demonstrados no episódio se tornaram uma marca registrada dos protestos feministo-marxistas que o sucederam.
Sinceramente, não creio que alguém possa ler este livro e ao final não sentir sua percepção da maneira como o mundo funciona sendo profundamente alterada. Entre outras coisas, o conceito geral que se tem de “poder” não engloba muito do que a palavra realmente significa. Muitas pessoas que a utilizam parecem ignorar essa noção quando é explicitamente utilizada em seu favor, ou pelas pessoas do seu meio, e imputá-la em contextos que nem de longe são tão óbvios.
Farrell estabelece, entre outras coisas, que os relacionamentos humanos por toda a história podiam ser divididos em dois estágios, I e II. No estágio I, o foco era a sobrevivência. Mulheres queriam se relacionar com homens que fossem bons protetores e provedores. Homens queriam se relacionar com mulheres que fossem atraentes, e cuidassem da casa e dos filhos. O estágio II, ainda não realizado, foca na realização pessoal e em escolhas pessoais.
O contrato social entre os sexos vigente hoje, porém, é apenas uma mutação (ou perversão) do primeiro estágio. As mulheres possuem direito de escolha, sem nenhum impedimento legal e os eventuais julgamentos sociais sendo irrelevantes. Elas podem assumir papeis mais tradicionais, podem focar na carreira e realização pessoal, ou escolher um meio-termo entre esses. Os homens, porém, não possuem esse mesmo nível de escolha.
O estado ainda exige que os homens, e apenas os homens, cumpram a função de protetores (do país, da família, das mulheres). Essa ainda é uma expectativa social exclusiva dos homens. O mesmo vale para a provisão. Através de leis e regulamentos que estabelecem o pagamento de pensão para ex-cônjuge ou para os filhos (que afetam, em esmagadora maioria, os homens), esse papel masculino tradicional ainda é esperado, e se preciso, legalmente imputado.
Farrell “desconstrói” a noção de poder masculino também ao listar outras desvantagens sociais que afetam estritamente (ou majoritariamente) os homens: profissões perigosas ou insalubres, obrigação do alistamento e serviço militar, taxas de suicídio, menor longevidade, violência, etc. Se o “patriarcado”, como as feministas o definem, realmente existisse para beneficiar os homens em detrimento das mulheres, ele está fazendo um péssimo trabalho.
Por fim, o livro discorre sobre a discriminação legal contra os homens, e a favor das mulheres. Um destaque é o capítulo 12, que lista as doze defesas "exclusivamente femininas", que as mulheres podem usar quando cometem assassinato, geralmente contra homens ou crianças.
Como exemplo, há a desculpa do desequilíbrio hormonal (a “defesa da TPM”), a “síndrome da mulher agredida” (quando mulheres afirmam que mataram os maridos porque esses a agrediam, e geralmente não precisam comprovar que tais agressões ocorreram), da depressão pós-parto, e o assassinato por contrato, e.o.
Essa certamente é a obra-prima de Farrell. Certos vícios que são mais proeminentes em livros posteriores, como o uso excessivo de anedotas supostamente reais, a repetição contínua de temas e expressões, são abençoadamente menos frequentes aqui. Já descrevi o livro certa vez como uma “metralhadora de truth bombs, e continuo a pensar assim.
Discordo do autor, porém, em seu tratamento histórico do feminismo. Ele o descreve como um movimento benéfico à sociedade, até sua corrupção ao final da segunda onda. Essa ideologia, porém, jamais foi igualitária, ou benéfica à sociedade. Ele parece ignorar ou escusar as atitudes misóginas de suas ex-colegas (ele já foi considerado um dos mais importantes “feministos” da segunda onda do movimento), e como tantos outros, não parece perceber que as feministas que verdadeiramente guardam intenções igualitárias são uma minoria, geralmente desprezada pelas demais.
Ainda assim, eu considero que a minha abordagem na defesa dos direitos dos homens e meninos deriva em grande parte de Farrell. Por isso, tento evitar o endeusamento que outros “masculinistas” fazem das tradições da antiguidade, idade média ou início da moderna (ainda que reconheça a importância delas, e defenda a manutenção daquelas que ainda são essenciais para o funcionamento da sociedade), e o julgamento moral de homens que resolvem seguir os mais diferentes caminhos em suas trajetórias de vida. Evito também recomendações quanto a relacionamentos (entre outras razões, porque a mecânica de relacionamentos pelos quais eu passo, enquanto homem gay, são bem diferentes da mecânica heterossexual) e estilos de vida.
Concluindo, o ideal que Farrell estabelece, de um mundo mais verdadeiramente igualitário (o “estágio II”), em que homens e mulheres são livres para escolher seus caminhos, e são publicamente valorizados quaisquer que sejam as funções que escolham, pode parecer utópico, mas é uma utopia cuja realização é válida de se defender.



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