Resenha - A Nova Liberação Gay - Escapando do Extremo Abichornado do Feminismo - Matthew Lye
O Movimento de Liberação Gay moderno, que eventualmente daria lugar ao LGBT+ (que eu chamo carinhosamente de sopadeletrinha), é visto atualmente (e com bastante razão) como basicamente intercambiável com o movimento feminista. Isso nem sempre foi realidade, e é essa história que o livro conta.
Várias fontes da época (por volta das décadas de 1970 e 1980) indicam que havia atrito entre esses dois movimentos. O movimento de liberação gay ganhou tração depois dos levantes de Stonewall, em 1969, durante os quais os frequentadores de um bar frequentado principalmente por homens gays (Stonewall Inn) rebelaram-se contra as constantes batidas e abusos policiais. Aproveitando o momento de ação e interesse pela comunidade, os grupelhos de apoio aos direitos gays ganharam membros e relevância política.
Mas esse movimento foi rapidamente cooptado. Nas primeiras conferências que foram organizadas, o foco obviamente era a reforma legislativa. É válido lembrar que em diversos países do mundo, inclusive no Ocidente, a atividade homossexual era considerada ilegal. Ou melhor, a atividade homossexual masculina era considerada ilegal. Ainda que certamente houvesse aversão social às relações sexuais e afetivas entre mulheres lésbicas, essa aversão social era exponencialmente maior no caso dos homens gays.
Os movimentos lésbicos, considerados um tanto independentes (à época, o “guarda-chuva” sopadeletrista não estava totalmente formado), estavam tomados de feministas que eram lésbicas separatistas. Ou seja, elas eram profundamente misândricas.
O livro conta a história de como essas feministas tomaram o controle do movimento de liberação gay, desviando o foco inicial, de reforma legislativa, para o combate ao eterno inimigo do feminismo: o patriarcado (que agora tomava um nome adicional, o “patriarcado heteronormativo”). Elas faziam algazarras e exigências, e assim como muitos homens heterossexuais fizeram no caso das feministas de primeira onda, esses homens gays cederam.
O acrônimo que um dia seria de fato uma sopa de letrinhas, na época GLBT (Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transexuais), ou GLS (Gays, Lésbicas e Simpatizantes) acabou virando LGBT, devido ao suposto status superior de opressão das lésbicas, que eram “oprimidas” duplamente, sendo mulheres e lésbicas. Nas Paradas do Orgulho, elas exigiram também desfilar na frente.
Essa tomada de poder certamente não se deu da noite para o dia, e de fato encontrou alguma resistência.
Mas não é apenas essa a história que o autor conta. Ele também fala da incoerência de homens gays apoiarem um movimento/ideologia que os odeia.
De fato, os homens gays não são considerados, especialmente pelas luminares do feminismo de segunda onda, como exceções ao padrão. Elas os odiavam tanto quanto (senão mais) os homens heterossexuais.
O autor procede então citando diversos trechos de obras de escritoras e acadêmicas feministas, que exibem o profundo desprezo, por vezes na forma de ódio vitriólico, que essas mulheres sentiam pelos homens gays.
Marilyn Frye, por exemplo, considerava os homens gays como sacerdotes da “falocracia” (foi daí que eu tirei meu cognome). Vejam a loucura delirante que ela escreveu:
Se a adoração ao falo é central na ‘cultura falocrática’, então os homens gays, em geral, são mais como sacerdotes ardorosos do que infiéis, e o movimento dos direitos dos gays pode ser o fundamentalismo da religião global que é o Patriarcado. Nesse sentido, a congruência da cultura gay masculina com a cultura heterossexual masculina, bem como o abismo entre essas e as culturas das mulheres é realmente grande. “The Politics of Reality – essays in feminist theory” (A política da Realidade – ensaios em teoria feminista), pgs 132-133.
Portanto, ela questionava por que os homens gays e héteros não se davam bem, se ambos estavam juntos na empreitada de odiar e oprimir as mulheres, e a única diferença entre eles é que os gays não precisavam de mulher pra nada, nem pra fazer sexo. Eram os mais homens entre os homens, dizia, na dita cultura falocrática.
As opiniões odiosas de outras autoras citadas deixam claro que qualquer homem gay que se declare feminista certamente nunca leu muita coisa escrita por feministas, inclusive as feministas de segunda onda que ainda hoje são temas de aulas de estudos de gênero e estudos das mulheres.
Por fim, o autor observa que as feministas, ao longo das décadas, ficavam deliciadas em explorar a divisão que historicamente existiu entre homens de diferentes orientações sexuais. O objetivo? Assegurar que mantenha-se o medo e a aversão que os impedem de se unir em oposição à ideologia feminista, que “procura debilitar os direitos e bem-estar de todo homem e menino. Feministas não querem que homens gays se enxerguem como homens em primeiro lugar, como feministas sem dúvida fazem, mas como uma espécie de subclasse de mulheres defectivas que elas esperam que participem na missão ideológica do feminismo de demonizar homens heterossexuais e sua “masculinidade tóxica”, como a causa de todos os problemas reais e imaginários que mulheres e homens gays enfrentam”.
Concluo com uma citação do livro, no final do Capítulo 3, que expressa bem sua mensagem geral:
“Feministas não podem “deixar sua ideologia totalitária fora disso” porque o feminismo é uma ideologia totalitária – uma ideologia que é construída na premissa de que todos os homens são privilegiados por um tão chamado patriarcado/falocracia no qual todos os homens são coniventes com o propósito primário de oprimir as mulheres. Homens gays não precisam do feminismo pelas mesmas razões fundamentais que homens heterossexuais não precisam dele. Não apenas é ridículo abraçar uma ideologia construída sob premissas deficientes, mas não há absolutamente nada a se ganhar ao apoiar um movimento cujas pensadoras mais influentes pintaram você por cerca de quatro décadas como seu inimigo. Além disso, é moralmente indefensável apoiar uma ideologia que promove a violência, intolerância, injustiça e divisão. Nesse aspecto, as mulheres não precisam de feminismo também – ninguém precisa”.



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