Homens que odeiam outros homens (E as mulheres que não os amam por isso)
O texto a seguir é uma tradução minha de um texto de Ferrel M. Christensen,
Professor de Filosofia, Universidade de Alberta, Canadá. Desnecessário dizer que todas as opiniões expressas por ele (e por outros autores cujas obras eu venha a traduzir) não são necessariamente as mesmas que as minhas. Mas concordo com o teor geral da mensagem, por isso me prestei ao trabalho.
O refrão constante das feministas
radicais – de que os homens são maus e as mulheres, suas inocentes vítimas – é
repetido por um numeroso coro masculino. Por uma série de razões, o ódio entre
grupos distintos é uma parte comum da condição humana. Mas ódio do grupo ao
qual se pertence é mais difícil de entender: por que membros de qualquer
categoria social iriam querer dizer coisas viciosamente falsas sobre eles
mesmos? A mera falha em se opor às
coisas ruins ditas por feministas radicais não é tão difícil de entender, é
claro. Por um lado, depois de séculos de dominação masculina das mulheres, pode
parecer mesquinhez e distração reclamar acerca de preconceito contra os homens.
Por outro, há o profundamente entranhado código de macheza, que insiste que
homens de verdade não “se queixam”; “esses nomes feios não me machucam”, eles
rebatem.
Porém,
outra influência silenciosa nos homens, nesse tocante, é a tática padrão dos
extremistas de atacar pessoalmente qualquer um que se preste a se opor a eles.
Na sua visão em preto e branco das coisas, se opor a qualquer coisa dita em
nome dos direitos das mulheres é se opor a essa causa – portanto, um homem que
expresse qualquer objeção deve ser um singular virulento misógino e opressor de
mulheres, promovendo uma “retaliação” contra elas. E há outros motivos também
para a falha generalizada em condenar a campanha anti-homem e a demonização
masculina. Mas, novamente, por que um número considerável de homens de fato se
junta a essa campanha contra os homens? O propósito deste artigo é listar as
razões principais.
Notem
a princípio, porém, o perigo de se discutir a motivação de outras pessoas. Como
se pode notar, de fato uma tática padrão de ideólogos é imputar malícia nas
mentalidades dos seus oponentes. Isso é feito especificamente como uma maneira
de se esquivar das questões que o oponente apontou, um jeito de evitar encarar
as evidências. Nós não devemos cair nessa armadilha. Não obstante, muito é
conhecido sobre a natureza humana em geral. Enquanto não afirmarmos que sabemos
com certeza a maneira de pensar de qualquer indivíduo em particular, e nos
atermos às evidências ao invés de fabricar fatos para se encaixarem com nossa
posição, podemos com sucesso procurar entender os mecanismos psicológicos da
injustificada auto-depreciação. Já que nós passamos do período do ano no Canadá
em que o ódio aos homens alcança o ponto de ebulição, quando eles são
coletivamente culpados pelo ato assassino de Marc Lépine, esse é o momento
apropriado para levantar essa questão.
UM:
primeiro de tudo, há a mentalidade de colméia: a tendência de se projetar os
atributos de certos indivíduos para todos os outros que são como eles de
maneira geral, ou apontar responsabilidade a todos os indivíduos de um grupo
pelos atos de um só membro. Combinado com o fato estatístico de que (uma
pequena minoria) os homens cometem a maior parte de atos agressivos contra
estranhos, isso leva a uma visão negativa dos homens em geral (quanto a essa
diferença estatística, as evidências indicam que a única diferença real entre
os sexos acerca da agressão contra outrem se baseia em habilidade e
oportunidade, não em disposição de fazer mal). Mas a mentalidade de colméia se
encontra no coração do racismo/sexismo. É responsável pela maior parte das
coisas que pessoas más fazem a outras pessoas nesse mundo, de homens culpando
mulheres pelo que Eva supostamente fez, de gentis culpando todos os judeus como
“Assassinos de Cristo”, de canadenses brancos culpando canadenses de
ancestralidade japonesa pelo que o governo do Japão fez na Segunda Guerra
Mundial, de sérvios e croatas culpando uns aos outros pelo que seus ancestrais
fizeram, de feministas culpando todos os homens pelo que Marc Lépine fez. O
ponto aqui é que esta maneira distorcida de pensar é tão comum que mesmo suas vítimas
estão aptas a acreditar nela: muitos culpam a si mesmos pelo que alguém
superficialmente parecido ou mesmo distantemente conectado a eles mesmos é ou
fez. Se o racismo/sexismo for algum dia cortado pelas suas raízes, a
mentalidade de colméia em todas as suas manifestações deve ser eliminada.
Tragicamente, o fato de que seus mais vocais proponentes a cometem em nome da
oposição ao sexismo/racismo indica que as coisas estão na verdade se movendo na
direção oposta.
DOIS:
A seguir, há aquela onipresente e difundida influência que possui enorme poder
sobre a psique humana, a doutrinação. A maioria das pessoas – com exceção
daquelas que adequadamente estudaram antropologia e psicologia humanas – é
totalmente inconsciente da extensão a qual seus pensamentos são moldados por
essa influência. Como no conhecido aforismo, a última criatura a descobrir a
água seria um peixe de águas profundas. O caso aqui é nossa longa tradição
cultural de considerar os homens como moralmente inferiores às mulheres. Essa
atitude social se manifesta de diversas maneiras (como costumava ser dito
antigamente, de maneira não tão negativa, colocar as mulheres em um pedestal);
isso influencia de maneira inconsciente e poderosa a maneira de pensar de
homens e mulheres. De fato, uma das razões porque o preconceito é tão ruim é o
fato de que é freqüentemente internalizado pelas próprias vítimas. Um caso
clássico de ser socializado a aceitar sua própria inferioridade vem da
experiência dos negros nos Estados Unidos. Por um longo tempo, por exemplo, os
de pele clara desprezavam e discriminavam os de pele escura. E do mesmo jeito
que mulheres e crianças internalizavam a crença de que elas não eram
competentes nas questões externas ao lar, os homens e meninos simplesmente
aceitavam o ensinamento de que eram moralmente inferiores, inerentemente. Os
detalhes e origens dessa atitude social são muito complexos para se discutir
aqui. Começa nos primeiros anos de ensino, quando a necessidade de ser
fisicamente energéticos nos meninos produz uma perturbação que os rotula como
“malvados”, enquanto as meninas mais passivas são descritas como “boazinhas”.
Eu escrevi em outro lugar sobre as fontes da visão de que a sexualidade
masculina típica é ruim enquanto a feminina é pura; e o motivo número 4, abaixo,
sugere uma razão mais ampla para essa atitude tradicional. Para o momento
presente eu posso apenas apontar que, dada essa tradição, homens denegrindo
outros homens é apenas o que se pode esperar.
TRÊS:
Um terceiro motivo da existência de “homens que odeiam homens” tem profundas
raízes biológicas: competição entre machos. Membros de cada sexo competem uns
com os outros, de maneiras diferentes. Em cada caso, além disso, parte da razão
é ganhar a aprovação do sexo oposto. Possivelmente o papel sexual mais antigo é
o de confrontar (fisicamente ou de outra maneira) outros homens de maneira a
ser vistos como superiores aos outros homens pelas mulheres. É claro, o homem
que verbalmente ataca os homens em geral se exclui tacitamente da acusação –
tentando provar pela sua própria “sensibilidade” que ele é uma exceção. (Que
bom pra ele, não?) E mesmo que ele se inclua na flagelação, o fato de que ele
admite sua maldade enquanto outros se recusam a reconhecer a deles revela sua
superioridade moral sobre eles.
QUATRO:
Um motivo que é produto da sociedade é o papel tradicional do homem como
protetor de mulheres e crianças – especialmente como defensor da “honra” das
mulheres. Aqui, novamente, o ponto usual é defender essa honra contra outros
homens. Mas há algo especialmente galante em se rebaixar de maneira a exaltar
outra pessoa – daí dizer coisas como “É claro que os homens são nojentos e as
mulheres são nobres”! Na lógica invertida do cavalheirismo, então, um homem pode
se sentir francamente orgulhoso de proclamar a inferioridade moral dos homens:
ele está ganhando sua honra como homem justamente por promover a honra das
mulheres. Essa é dificilmente uma bênção disfarçada para as mulheres, porém. O
código de cavalheirismo se desenvolveu nessas culturas que eram mais
dominantemente masculinas – como uma compensação às mulheres, ao que parece,
por lhes serem negadas liberdade e poder. No século 19, por exemplo, as
mulheres eram consideradas “criaturas especiais”, muito puras e nobres para que
se permitisse que se imiscuíssem no mundo masculino de trabalho pago e
política. Esses homens que se uniam à demonização dos homens porque
conscientemente ou inconscientemente aceitavam esse rótulo tradicional,
conseqüentemente, estão auxiliando e reforçando o sistema tradicional sexista.
De fato, alguns deles são simplesmente sexistas não-regenerados,
tradicionalistas extremos que dizem “mulheres são melhores que homens e
pretendemos manter as coisas desse jeito”.
Uma
mulher inteligente e justa não vai aceitar ser “honrada” dessa maneira. Muitas
feministas igualitárias, de Karen deCrow à Carol Tavris, alertaram quanto ao
perigo de se colocar as mulheres em um pedestal de superioridade moral.
Ironicamente, porém, mesmo muitas feministas sexistas – para as quais a maldade
masculina é o coração de sua ideologia – também resistem em aceitar odiadores
dos homens entre traidores dos homens. A muito trombeteada campanha da White
Ribbon, organizada por homens “pró-feminismo” visando promover a
responsabilidade masculina coletiva pelo que homens maus fazem com mulheres,
foi recebida com fungadelas de desprezo por feministas extremistas: mais uma
prova do quão facilmente homens ganham atenção e recursos por “seus” projetos
(deixando menos para os grupos de mulheres), e um lamentável pedaço de
simbolismo vazio. Escrito nas entrelinhas: “Nós não vamos deixar você se livrar
da culpa assim tão facilmente”.
CINCO:
Aí entram os motivos mais pessoais dos homens que promovem a difamação dos
homens. Em outro artigo, “A Síndrome Freedman-Stoltenberg”, eu já desenvolvi um
deles: sendo, por natureza ou criação, menos aptos que outros homens a
corresponder aos exagerados ideais de masculinidade dessa cultura, alguns
respondem (a metade Stoltenberg da síndrome) por desprezar os homens e a
masculinidade. Vendo a masculinidade como sem valor ou simplesmente má é outro
meio de escapar do sentimento de que eles mesmos não têm valor. Mas essa é uma
falsa escolha. A coisa racional a fazer é meramente rejeitar o papel masculino,
ao menos para si próprio. Já que as pessoas com freqüência simplesmente são
incapazes de fazer a coisa racional, essa reação revela uma boa razão – uma de
muitas – para todos nós trabalharmos no sentido de eliminar imposições externas
de rótulos sexuais. Eles oprimem a todos nós. Mas respondendo a eles da maneira
discutida aqui faz mais mal do que bem.
SEIS:
Como a misoginia, a misandria é com freqüência resultado de experiências
traumáticas com uma mulher ou homem – especialmente com um dos pais ou
congêneres na infância. O caso mais comum é de uma pessoa que odeia ou
desvaloriza o sexo oposto por conta desses eventos. Mas, de maneira similar,
maus-tratos ou percepção de maus-tratos por um modelo primário do mesmo sexo
pode levar, em indivíduos vulneráveis, ao ódio do próprio sexo. Isso, então,
constitui outro motivo pelo qual alguns homens expressam ódio dos homens. Mas
isso também pode resultar em ódio de si mesmo – e os conflitos internos que
isso produz são horríveis. Eu creio ser plausível que a raiva que Marc Lépine
sentia de seu pai abusivo criou sentimentos de ódio a si mesmo enquanto homem, e
que sua defesa psicológica contra esse estado insuportável tomou a forma da
transferência da culpa para qualquer um visto como ofendendo o seu senso
distorcido de masculinidade – mesmo as inocentes mulheres igualitárias que ele
assassinou. Em qualquer evento, uma vítima de ódio de si mesmo precisa
seriamente de compaixão e ajuda. E as pessoas que exacerbam seus sentimentos
promovendo o ódio pelos homens (ou qualquer grupo), além dos outros motivos
aqui listados, precisam ainda mais ser educados do mal que estão fazendo.
SETE:
Agora, para o tipo final de motivação. Alguns homens em algum ponto de sua vida
cometeram pessoalmente atos contra mulheres pelos quais eles sentem grande
culpa. Talvez eles não tenham feito nada de errado, mas eles foram doutrinados
a acreditar que fizeram (vide motivo 2). Ou talvez eles tenham sido igualmente
ruins com ambos os sexos, mas sentem culpa apenas pelo que fizeram com mulheres
(vide motivo 4). Talvez eles tenham sido realmente especialmente abusivos
contra mulheres, porque eles tinham o poder de fazê-lo ou mesmo por conta de
atitudes preconceituosas contra mulheres em geral. De qualquer forma, às vezes
esses homens se sentem sobrecarregados por remorso. E quando isso acontece,
alguns recorrem a um pronto mecanismo de defesa: “Mas ao menos eu não sou pior
que qualquer outro homem”! Eu fico embasbacado com a proporção de homens
promovendo a visão de que todos os homens são maus com relação às mulheres, que
apontam vagamente ou mencionam abertamente para alguma malevolência em seu
próprio passado. Fico tentado a falar para eles: “Então fale por si mesmo – não
pinte todos os outros homens com seu pincel sujo!” Mas eu suspeito fortemente
que eles são psicologicamente incapazes de fazê-lo – que o seu senso de culpa é
tão terrivelmente doloroso que iria matá-los se fossem privados da desculpa de
que os homens em geral são como eles são, e do senso de redenção que denunciar
outros homens os confere.
Do
jeito que algumas pessoas parecem pensar, sexismo por definição pode apenas ser
cometido contra membros do sexo oposto, não do mesmo. Alguns, é claro, o
definem de maneira que só pode ser cometido contra mulheres, daí qualquer coisa
ruim que eles façam ou digam sobre homens não é preconceituoso. Na verdade,
porém, parte do preconceito mais sério é direcionada a outros membros do seu
próprio grupo. (Nota: em grego, homo significa “igual” e phobos se refere a
medo ou aversão; daí, etimologicamente falando, homofobia é aversão a pessoas
como si mesmo, não aversão a homossexuais. Alguns dos piores homofóbicos,
literalmente falando, são alguns dos homens que gritam aos outros o mantra
“sexista, racista, homofóbico”). Entender as origens dessa forma particular de
ódio é uma parte essencial no processo de quebrar as algemas do preconceito em
geral. Elas devem ser todas quebradas,
de uma vez por todas.
Feminismo Delenda Est!






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