RELEITURA PÓS-REDPÍLICA: DEAR ZACHARY: UM CASO CHOCANTE
ALERTA DE TRIGO: Spoilers, muitos
spoilers.
O documentário Dear Zachary: Um Caso Chocante (no original, Dear Zachary: A Letter to a Son About His Father), segundo seu autor, Kurt Kuenne, a princípio não seria para “consumo público”, e sim para uso interno da família e amigos de Andrew Bagby, um amigo seu que tinha sido morto em 2001. Além disso, deveria servir de “álbum de recortes” cinematográfico a ser mostrado ao filho de Bagby, que nasceu no ano seguinte, para que conhecesse o pai através das pessoas que o haviam conhecido.
É preciso ter isso em mente ao analisar esse documentário. Ele não foi
produzido para oferecer uma versão equilibrada e sem viés da história que se
propunha a contar. Bagby é retratado como um cara legal, quase como um “anjo”,
em comparação com outra pessoa no qual o filme se foca, da qual falarei em
seguida.
Bagby foi assassinado por Shirley Jane Turner, com quem ele havia
terminado um relacionamento conturbado de maneira um tanto abrupta (feminazis
de hoje descreveriam isso como falta de “responsabilidade afetiva”). Logo depois
de ser detida como suspeita, Turner anunciou que estava grávida de um filho de
Bagby. Foi depois disso que Kurt começou a gravar seu documentário.
Como ela tinha fugido para o Canadá, enquanto esperava o processo de extradição,
ela não ficou presa, e deu à luz um menino chamado Zachary. Os pais de Andrew
se mudaram para o Canadá, para tentar ganhar a guarda dele. A extradição,
porém, foi prolongado repetidamente por tecnicalidades levantadas pelos
advogados de Turner.
Eventualmente, porém, um tribunal provincial do Canadá decidiu que existiam evidências suficientes de que ela era culpada do assassinato de Andrew, e ela foi aprisionada. Os pais dele, David e Kathleen, ganharam a guarda do menino. Porém, o acordo que eles assinaram os obrigava a contatá-la e levar o filho para visitá-la na prisão periodicamente.
A alegria dos pais, porém, não durou muito. Na cadeia, Turner escreveu
para um juiz (não para um advogado, ou conselheiro legal, mas para um juiz)
que, contrariando qualquer procedimento aceitável, a ética da profissão e os
princípios básicos de justiça, recebeu aconselhamento sobre como apelar de sua
detenção e aprisionamento.
Uma juíza (que, sinceramente, só faltava ter a palavra “FEMINISTA”
tatuada na testa), Gale Welsh, mandou soltar Turner, pois segundo ela, a
despeito de diversas ocasiões em que ela apresentou um comportamento no mínimo
violento e psicótico, Shirley não apresentava uma ameaça à sociedade. O crime
que ela cometeu, veja bem, tinha sido “específico”. Em outras palavras, ela já
tinha matado quem ela queria matar, então não havia razão para mantê-la
encarcerada, pois não apresentava mais perigo a ninguém. Shirley foi solta sob
fiança (que foi paga, em sua quase totalidade, por seu psiquiatra).
E quanto aos conceitos mais básicos de justiça? E quanto ao assassinato
frio e cruel de outro ser humano, com toda a vida pela frente? Deveria ficar
impune?
Esse tipo de decisão jamais teria sido cometido caso Turner fosse
homem. O fato de ele ter matado alguém não seria considerado de maneira tão
leviana. E a justiça, certamente, absolutamente, jamais iria estender a mão a
ele, de maneira totalmente irregular, caso ele precisasse de aconselhamento
legal e não quisesse obtê-lo de um defensor público. Esse nível de leniência
somente é oferecido ao sexo “oprimido”.
De qualquer forma, livre, leve e solta, Shirley pediu pela guarda
compartilhada de Zachary. Novamente, os membros do poder judiciário do Canadá
parecem ter esquecido seu cérebro dentro do vaso sanitário junto com sua última
cagada, e aprovaram essa abominação. Uma assassina desequilibrada, que jamais
recebeu um veredicto de “inocente” pelo crime que cometeu (apenas um “Que feio!
Não faça mais isso! ”), criando um filho. Novamente, esse tipo de coisa só
acontece com o sexo “desprivilegiado”.
Aí, o filme dá um giro brusco e emocionalmente arrebatador: em 18 de
agosto de 2003, Shirley suicidou-se, e matou com ela o pequeno Zachary, com
pouco mais de um ano. Kurt então registra o efeito devastador disso na família
e amigos de Andrew.
Um relatório, emitido pelo Ministério da Justiça de Newfoundland,
Canadá, declarava que a morte do menino era evitável, e que a maneira como o governo
tratou do caso de Turner tinha sido totalmente inadequada. O psiquiatra de
Turner foi considerado culpado de má conduta por ter ajudado a pagar a fiança e
o diretor do serviço de proteção à criança local se demitiu.
Por pressão dos pais e amigos de Andrew, eventualmente foi aprovado no
Canadá um projeto de lei em 2010, que forçava os tomadores de decisões
judiciais a ter em mente a segurança das crianças durante audiências de fiança
e disputas pela guarda, particularmente quando a criança está sob a guarda de
alguém que foi acusado de um crime sério.
Zachary, o menino Rhuan, e tantos
outros. Vítimas da ginolatria institucionalizada que permeia todos os níveis do
governo. Que permitiu que fossem assassinados ao ignorar ou relevar a ameaça
que suas “mães” representavam a eles.
E como o governo e o poder
judiciário não são nada além de reflexos da sociedade, isso nos revela um lado
sombrio de nós mesmos: quantos de nós possuem os mesmos vieses, o mesmo desejo
primitivo de acreditar que uma pessoa, apenas por razão de seu gênero, é
incapaz de cometer atos tão terríveis?
Vou soar como um professor de
sociologia agora, portanto me desculpem, mas se faz necessária uma “mudança de
paradigma”. Uma mudança na narrativa cultural, a fim de proteger e salvar
aqueles que deveriam receber a atenção e o cuidado prioritários: as crianças.
Feminismo Delenda Est!




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