DOBRANDO O GÊNERO: NÃO É PERMITIDO NENHUM MARICAS
O texto a seguir é uma tradução minha de um artigo de Karen Straughan. Enquanto não me aventuro novamente em traduções mais longas (como recentemente, em que traduzi o Mito do Poder Masculino do Farrell), pensei em traduzir alguns dos posts mais antigos da Karen. Este é de 2011. . Desnecessário dizer que todas as opiniões expressas por ela (e por outros autores cujas obras eu venha a traduzir) não são necessariamente as mesmas que as minhas. Mas concordo com o teor geral da mensagem, por isso me prestei ao trabalho.
Com
frequência me descrevo como sendo um pouco gender
queer. Embora
eu muito definitivamente me identifique como uma mulher, eu sou uma
mulher um tanto masculina, com certeza, e essas qualidades masculinas
são parte tanto do meu “uniforme” social – corte de cabelo
masculino, pouca ou nenhuma maquiagem, sapatos práticos, calças
jeans e regatas, nenhuma joia, unhas cortadas – quanto da minha
habilidade de me identificar com o ponto de vista masculino em muitas
questões. Eu tenho preferência pela companhia masculina, não
porque eu não goste de mulheres, mas porque elas com frequência se
comportam de maneiras que se encontram fora do meu escopo interno de
experiências. Com frequência eu me vejo silenciosamente confusa
entre elas, incapaz de encontrar interesses em comum.
E
eu consigo me safar disso, gozar do respeito de meus colegas de
trabalho e chefes, homens ou mulheres, e nunca tive problema algum em
encontrar parceiros sexuais heterossexuais. O mesmo não pode ser
dito dos homens.
Para
os homens, o gênero é muito mais severamente reforçado. É
reforçado por mulheres, na escolha delas por parceiros sexuais
(embora eu saiba que existe um grupo minoritário de mulheres que se
sentem atraídas por garotos “emo” e andróginos, e
“marias-purpurina” (1) existem desde muito antes de Oscar
Wilde). Também é rigorosamente e com frequência brutalmente
reforçado por outros homens, como Bill Burr tão lindamente e
sucintamente explora nesse trecho de stand-up.
Manifestações
de fraqueza são ridicularizadas por amigos que buscam manter seus
camaradas em um determinado padrão de masculinidade, ou exploradas
por inimigos que buscam provar sua masculinidade ao chutar seu
traseiro. E a doutrinação a respeito das coisas que são “de
macho” começa no berço. Eu li algum material (embora eu não
tenha os estudos à mão) (Mas eu tenho! –
Nota do Tradutor) que demonstra que, embora os bebês meninos tenham
maior probabilidade de serem irritadiços, os pais são mais rápidos
em consolar ou assistir a uma bebê menina. Então a socialização
dos homens a respeito de se tornarem fisicamente autossuficientes,
emocionalmente reservados, e fortes o suficiente para “aguentarem a
barra” por si mesmos começa na infância. Além disso, a
socialização que começa através de grupos de colegas depois da
infância conduz os meninos na direção de comportamentos de tomada
de riscos, tolerância à dor, competição, projeção de força, e
uma relutância séria em pedir por ajuda.
Ao
longo do último ano, eu desenvolvi uma amizade virtual com um
compatriota canadense que vem morando e trabalhando fora do país.
Nós criamos afinidade por conta de nossa bissexualidade e nossa
abertura a novas experiências sexuais, e a ruína emocional que pode
acontecer quando o que foi taxado como um encontro casual e sem
compromissos se torna complicado por emoções inesperadas,
manipulação ou desonestidade. Ele espera que quando ele voltar para
o Canadá, a gente possa sair um pouco juntos. De acordo com ele, eu
sou a única pessoa com quem ele se sente confortável o suficiente
para falar sobre suas aventuras sexuais e experiências fora do país,
e ele me disse que seus amigos - todos “caras” – NÃO
entenderiam nenhuma das coisas que ele sentiu ou fez nos últimos
anos. Ele vive com medo de que eles vão descobrir, ou perceber de
alguma forma, e o punirão adequadamente.
E
embora eu considere seus temores lamentáveis, eu sei que eles são
justificados. Ele me disse uma vez que seria mais fácil se ele fosse
gay – que se fosse esse o caso, haveria uma linha evidente que
distinguiria o que ele é como uma questão de orientação sexual ao
invés de gênero. Nós ainda vivemos em uma cultura
predominantemente monossexual, “é ou não é”, especialmente no
que diz respeito aos homens. Enquanto o fato de eu gostar de “dar
tesouradas”
ocasionalmente com
uma mulher não faz de mim “menos” mulher, o fato de ele
experimentar com a sexualidade entre homens – mesmo no contexto de
um ménage a trois
envolvendo uma mulher
– coloca em dúvida o seu status enquanto homem. Pode até ser
aceitável para um homem sair com homens, mas tal atividade o torna
indigno de desempenhar o papel de homem para uma mulher aos olhos a
sociedade.
É
a mesma coisa com manifestações de fraqueza e sentimentalidade,
precisar de ajuda, serem vítimas, chorar, ou qualquer outra coisa
comumente associada à “fêmea”. Por mais que feministas e
mulheres da “nova era” insistam que gostariam que os homens
fizessem mais dessas coisas, o que elas dizem
que querem dos homens,
e o que as leva a escolher um parceiro sexual (seja a longo prazo ou
só para umazinha) são com frequência duas coisas completamente
diferentes. Eu não consigo nem mesmo imaginar o nível de frustração
envolvido em ser repetidamente “friendzoneado” por incorporar
todos os atributos politicamente corretos que as mulheres vêm
dizendo, pelos últimos sabe Deus quanto tempo, que elas desejam em
um homem.
O
que me traz à “razão” por trás de tudo isso – por trás da
minha liberdade (tanto social quanto sexual) para expressar minha
orientação sexual ligeiramente desviante e não ser penalizada por
isso sendo considerada como “menos que mulher”, enquanto os
homens que fazem o mesmo são considerados “menos que homens”.
A
maioria das feministas com quem me deparei concluíram que essa
penalização de “homens maricas” se origina nas posições
relativas de homens e mulheres, e da visão social de que a
“masculinidade” como sendo intrinsicamente superior à
“feminilidade”. Que as mulheres têm sido sempre consideradas
como “inferiores” aos homens.
Mas
sabe de uma coisa? Eu na verdade acredito que seja exatamente o
oposto.
Veja
bem, vamos considerar a sociedade como um empregador. O empregador
quer que todos os seus empregados sejam úteis e valiosos, pois de
outra maneira não há por que pagá-los. E do que nosso empregador
precisa para que se perpetue e cresça? Precisa de costas fortes para
fazer as coisas acontecerem, e precisa de pessoas cujo trabalho é
fornecer mais costas fortes para substituir aquelas que se desgastam
ou se aposentam.
As
mulheres fornecem essas costas fortes ao gestar crianças. Esse é o
papel principal delas, porque é importante e quem mais vai fazê-lo?
E porque esse papel é tão importante, e porque a habilidade de as
mulheres efetivamente fazerem tal trabalho requer segurança, apoio e
acompanhamento, as mulheres são com frequência compartimentalizadas
em uma posição onde essas necessidades podem ser eficientemente e
consistentemente atendidas. Elas são “estocadas” em pequenos
cubículos seguros, e não é permitido que elas se envolvam com
trabalhos que possam colocá-las em sério risco de não serem mais
aptas a cumprir sua função principal. Ao invés disso, elas são
relegadas a tarefas seguras e relativamente fáceis nos períodos
entre seus projetos mais amplos e importantes.
Os
atributos que são mais valiosos em uma empregada mulher são uma
disposição em seguir orientações, uma habilidade de fazer com que
suas necessidades individuais sejam reconhecidas para que sejam
atendidas, e as características físicas consideradas mais
relevantes para cumprirem sua função primária muitas vezes mais.
Que
papel resta então ao homem? Isso os deixa com o trabalho de serem as
costas fortes. Eles carregam coisas pesadas, eles mexem com o
cabeamento de alta voltagem que serve ao complexo de escritórios,
eles saem para enfrentar o perigoso mundo exterior e voltam com
provisões e suprimentos de escritório.
Embora
os homens sejam necessários como colaboradores de projeto para
assistir à função principal das empregadas mulheres, em se
tratando dessa contribuição particular, um homem pode fazer o
trabalho de muitos, se necessário. Considerando que sempre haverá
homens empregados pela companhia, esses homens variam em sua
capacidade de serem úteis para a companhia, e os homens passam
adiante seus atributos para as novas costas fortes que eles ajudam a
fornecer, está no melhor interesse da companhia que apenas os homens
mais valiosos cumpram com essa função em particular. Não há valor
algum para a companhia se é permitido a um homem que é preguiçoso
ou de outra forma inadequado que contribua dessa maneira,
considerando que as novas costas que ele ajuda a fornecer não serão
tão fortes quanto outras. E está no melhor interesse das mulheres
que elas sejam seletivas ao escolher seus parceiros de projeto,
considerando que o valor das mulheres para a companhia aumenta se as
novas costas fortes que elas fornecem forem excepcionalmente fortes.
Mas
as mulheres podem ocupar esses trabalhos primordialmente
“masculinos”? É claro que podem. E elas o fizeram, em diversas
ocasiões ao longo da história, onde e quando isso era necessário.
Embora cumprir essas tarefas possa colocá-las em risco (o que deve
ser evitado, se possível), e com frequência faz com que elas tenham
de suportar um fardo duplo, já que é esperado que elas façam o
trabalho de duas pessoas, é inteiramente possível que elas o façam
e ainda mantenham seu valor perante à companhia.
Uma
mulher pode fornecer mais costas fortes enquanto faz um pouco do
levantamento de cargas pesadas e um pouco dos trabalhos mais
arriscados, quando isso é necessário. E uma mulher pode cumprir seu
papel feminino principal simplesmente ficando por aí sem fazer muita
coisa. Mesmo que ela não faça quase nenhuma outra coisa, se ela
está cumprindo, ou tem o potencial de cumprir, aquela função para
seu empregador, ela tem valor. É provável que ela não vai ganhar
tanto se não está sendo produtiva de outras maneiras, mas ela ainda
tem direito a um salário se ela cumpre seu dever primordial, ou a um
adiantamento se ela tem o potencial de cumpri-lo. Se ela não pode
cumprir seu dever primordial, existem outras tarefas que ela pode
cumprir que têm valor, tanto no departamento masculino quanto no
feminino, e existe ainda a chance de ela ser capaz de fornecer ao
menos uma costa forte futura. Essa função primária é TÃO
importante, que a companhia tem políticas eficazes para fornecer
pensões para suas mulheres contratadas, mesmo que elas estejam sendo
improdutivas de qualquer maneira.
Mas
pode um homem cumprir esse trabalho único e primordialmente
feminino? Bem, não. Ele não pode. Tipo, de maneira alguma. O seu
valor inteiro à companhia está na sua habilidade de cumprir os
trabalhos mais difíceis, arriscados e extenuantes para que as
mulheres possam se aproveitar de deveres mais leves enquanto
contribuem de maneiras mais importantes. Para cumprir essas tarefas,
ele precisa de certos atributos – força física, confiança ao
encarar o perigo, uma disposição de assumir riscos, um senso de
colocar os outros antes de si mesmo, e uma ânsia de ser
bem-sucedido. Quanto mais desses atributos ele tiver, mais valioso
ele é para a companhia. Quanto menos deles ele tiver, maior a
probabilidade de ele ser despedido. Ele não terá direito a um
adiantamento ou a uma pensão se parece que a companhia não pode
usá-lo para nada, porque se a companhia fizer isso, ele será apenas
um encargo em sua folha de pagamento.
Os
homens têm de conquistar seu valor à companhia. Eles não podem
conquistar seu valor por serem bons em tarefas femininas secundárias
– existem toneladas de mulheres na companhia, e elas podem cumprir
essas tarefas secundárias enquanto também cumprem sua tarefa
principal. Ele não vai ser contratado para fazer metade de um
trabalho, e ele não é qualificado para fazê-lo por inteiro. O
único papel que ele pode cumprir, enquanto retém valor individual
suficiente para a companhia para que continue na folha de pagamento,
é o papel masculino.
Então,
em minha opinião, os homens sofrem uma aplicação mais rigorosa de
seus papeis de gênero não porque eles são considerados mais
valiosos que as mulheres, ou são preferíveis a elas, ou porque as
mulheres são consideradas inferiores aos homens. É porque as
mulheres são e sempre foram mais valiosas, em uma base individual e
inerente, à companhia que os homens são. Uma mulher retinha esse
valor inerente não importa o quão útil ela fosse, porque as
mulheres como um grupo eram consideradas tão valiosas que estava no
melhor interesse da companhia manter o grupo inteiro na folha de
pagamento. Uma mulher que pudesse ir além de seus deveres atribuídos
e cumprisse outros quando necessário – ou seja, uma mulher que às
vezes se comportasse como um homem – era, até certo ponto, mais
valiosa à companhia por sua habilidade em fazer isso. Ela era a
Mulher “Plus”. Ela podia fazer o trabalho que só ela podia
fazer, e mais algum.
Por outro lado, ela
também era o Homem “Plus”. Ela podia fazer o trabalho de um
homem, e mais um pouco.
Ela pode ser as costas
fortes e a fornecedora de costas fortes, a mais versátil e valiosa
empregada que há.
Os
homens, por outro lado, tinham de provar seu valor a fim de manter
seu emprego. O valor deles à companhia repousava em cumprir tarefas
específicas para que mulheres não precisassem fazê-las, e em serem
valorosos colaboradores de projeto que tinham de conquistar seu
direito de trabalhar com as mulheres deste modo. Homens que não
agiam “como homens” eram Menos que Homens. Do mesmo modo, eram
Menos que Mulheres. Eles eram incapazes de fazerem um trabalho
completo, qualquer que fosse ele, então não havia valor algum neles
demonstrarem características femininas sem que tivessem um útero
que viesse com elas a tiracolo.
E
a esse ponto, a companhia, por uma questão de sua própria
solvência, iria vigorosamente “retreiná-los”, ou então lhes
dar a carta de demissão. Não é que a masculinidade seja “melhor
que” a feminilidade. É que a masculinidade tem sido sempre
extremamente limitada em suas permutações úteis e produtivas,
enquanto a feminilidade é simplesmente menos limitada. O feminino
essencial pode apenas ser adicionado para ganhar valor, enquanto o
masculino essencial pode apenas ser subtraído para perdê-lo.
Muitas
mulheres têm sido capazes de completamente abandonar seu feminino
essencial – sua função primária – e ainda reter status como
seres humanos completos com valor à sociedade, mas os homens
simplesmente não podem fazer o mesmo. Quando eles abandonam a
masculinidade, eles jogam fora tudo o que faz suas vidas valerem a
pena para qualquer um que não eles mesmos.
É
possível mudar isso? Talvez. O mesmo progresso social, biológico e
econômico que tem permitido às mulheres que deixem de lado sua
essência feminina e ainda retenham algum valor para nossa sociedade
em evolução deveria certamente fazer o mesmo para os homens.
Existem mais papeis – e significativos! - disponíveis para todo
mundo agora que os antigos papeis “primários” estão se tornando
menos importantes para a “corporação”, e os homens fazem parte
desse “todo mundo”. Mas enquanto as mulheres não estiverem
dispostas a incorporar totalmente esses novos papeis, elas vão
querer prender os homens aos seus papeis antigos. E a dinâmica, ao
longo da história, tem sido sobre os homens colocando as mulheres –
sua segurança, provisão e conforto – antes de si mesmos. Por
conta disso, a estrada da verdadeira liberação de seus papeis de
gênero para os homens vai ser muito mais turbulenta que a das
mulheres tem sido.
Publicação original:
Notas de Tradução:
1 - Maria purpurina é um neologismo (de Maria, nome genérico de mulher, e purpurina) e é usado para se referir a uma mulher heterossexual que se associa exclusivamente com homens homossexuais ou bissexuais, ou mulheres cujos melhores amigos são gays.





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