Releitura Pós Redpílica: Série Os Filhos da Terra




Os Filhos da Terra é uma série de ficção “histórica” escrita por Jean M. Auel, cuja história se passa há cerca de 30.000 anos antes do momento presente. Há seis volumes na série, e embora a autora tenha mencionado que deverá ser publicado um sétimo volume, todos os anúncios publicitários do sexto livro se referem a ele como o último da série.

A série é tida como “historicamente acurada”, devido à extensa pesquisa feita pela autora na produção da série, envolvendo as áreas de botânica, herbologia, arqueologia e antropologia. Apesar disso, ela usou de muita, mas muita licença artística literária em seus romances.



Parte das inconsistências encontradas na série podem ser explicadas pela evolução do conhecimento antropológico desde a publicação inicial de Ayla, a Filha das Cavernas, em 1980. Descobertas mais recentes apontam, por exemplo para o fato de que os Neandertais, ao contrário do que é descrito nos livros de Auel, tenham constituído grupos mais “igualitários”, no que concerne à divisão de trabalho entre os sexos. E que foi justamente a divisão laboral que deu a vantagem evolutiva aos humanos modernos.

Outra parte, é claro, é justificada por pré-conceitos e doutrinações presentes na academia científica, em 1980 e até hoje.

Mas cabe aqui um resumo da história geral que os livros contam. A personagem principal é Ayla, uma Cro-Magnon (os mais antigos entre os humanos modernos) que após ficar órfã por conta de um terremoto, é adotada por uma tribo de Neandertais (espécie humanoide ancestral extinta, com a qual os humanos modernos compartilham cerca de 99,7% do DNA).



Os Neandertais de Auel vivem numa sociedade que parece a descrição feminista perfeita do “Patriarcado”: os homens dominam as mulheres, cujas características principais são a passividade e o servilismo. Elas devem estar sempre prontas a atender a todas as vontades dos homens, inclusive sexuais. Enquanto os homens se ocupam da caça e de todas as atividades relacionadas à caça, as mulheres cuidam de todo o resto, incluindo atividades que demandavam força física extrema.

Depois de ser expulsa do clã que a acolheu, na adolescência, Ayla perambula pelo Norte do que hoje é a Ucrânia, em busca de pessoas que fossem suas semelhantes, como desejou sua mãe adotiva neandertal em seu leito de morte. Lá, ela acaba adotando animais que acaba domesticando (uma inovação no universo fictício dos livros), primeiro uma égua e depois um leão da montanha. Eventualmente, acaba encontrando um homem Cro-Magnon, Jondalar, que se apaixona por ela e acaba lhe pedindo que volte para a casa dele (no que hoje é a França), tem uma filha com ela (Jonayla).

Reconstrução artística de um Cro-Magnon
Museu Americano de História Natural
As sociedades Cro-magnon são descritas nos livros de Auel como razoavelmente igualitárias e matriarcais. A violência entre pessoas do mesmo povo e mesmo entre pessoas de povos diferentes é desencorajada.

Aí é que entram os pressupostos feministas que dominam a academia, e que serviram de base para a ambientação de Auel.

Não há nada que indique que os matriarcados antigos (ou mesmo os atuais) sejam menos violentos que os patriarcados. A descrição romântica e fantasiosa das mulheres como sendo universalmente mais calmas, centradas e menos propensas a deixar que as emoções nublem seu senso crítico e capacidade de liderança não é nada mais que isso, fantasiosa.

Quanto à Ayla em si, ela pode ser descrita como a Tatara-tatara-tatara... – vó de todas as Mary Sues: inventou, sozinha ou com a ajuda de Jondalar, diversos aprimoramentos que ajudavam a tornar melhores e mais eficientes as atividades cotidianas (por exemplo, o uso de pederneiras para o acendimento rápido do fogo). Aprendia em pouco tempo os mais diferentes idiomas. Tinha memória fotográfica, e tudo o que ela fazia era de melhor qualidade que o dos outros. E quando ela não conseguia reproduzir um processo utilizado por outros, ela inventava uma maneira ainda melhor de obter os mesmos resultados. E, obviamente, não tinha basicamente nenhum defeito de caráter.



Embora isso não tenha sido tão presente nos primeiros volumes, os últimos livros pecam pelo excesso de repetição. Cada tribo ou pessoa nova que encontra Ayla precisa numerar todas as suas qualidades e excentricidades, não apenas entre um livro e outro, mas no mesmo livro, também. O quarto volume, Planície de Passagem, também desperdiça uma quantidade enorme de tempo com descrições detalhadas do ambiente, vegetação e fauna, que são largamente desnecessárias para o enredo.

Jondalar, por outro lado, é descrito como muitos homens em ficções românticas escritas por mulheres: pirocudo, romântico e atencioso (nas muitas cenas de sexo, ele parece se importar primariamente com o prazer que oferece às mulheres, e não com o seu próprio). E como ele é homem, pode ser falho. A impulsividade e o ciúme doentio são algumas das características imputadas a ele.



Enquanto arquétipos feministas, funcionam bem. Ela, a mulher perfeita em si, incapaz de errar, melhor em muitos aspectos que ele. Ele, que apesar de possuir algumas características positivas, é levado muitas vezes a agir de acordo com uma “natureza masculina destrutiva”. Ele fica preso num contínuo estado de desconstrução, sem jamais poder ser totalmente redimido.

Ao final do último volume, ambos acabam “inventando” o patriarcado. Até aquele momento, nenhuma sociedade, neandertal ou Cro-Magnon, fazia ideia do papel masculino na reprodução. As explicações para a concepção eram de natureza mística, como a luta entre espírito masculino e feminino ou a Infusão, pela Grande Mãe Terra (deidade matriarcal) do espírito masculino nos bebês (que eram gerados exclusivamente pelas mulheres).

Ayla, ao juntar-se aos equivalentes aos xamãs/sacerdotes do povo de Jondalar, acaba revelando, através de uma alucinação originada da ingestão de fortes ervas psicotrópicas, que o homem possui um papel ativo na reprodução: que sem que ocorra a ejaculação no interior do corpo da mulher, uma nova criança humana não pode nascer.

Isso imediatamente muda toda a estrutura da sociedade. De início, para não causar maiores problemas os sacerdotes concordam em manter as coisas como estão, concedendo aos homens uma única honra por conta de seu papel recém-descoberto: eles podem dar nome aos bebês de sexo masculino.

Muitos dos homens que testemunharam essa novidade começam a fazer perguntas pertinentes. “Como posso garantir que os filhos que estou sustentando e protegendo são meus mesmo? ”; “Devo continuar a sustentar e proteger aqueles que sei que não são meus? ”; etc.

Fica então pressuposto ao final que essa é a origem das sociedades patriarcais. Os homens, ao descobrir seu papel na reprodução, iniciam um processo de restrição sexual das mulheres, para garantir que sua prole seja genuinamente sua.

O que, é claro, está muito longe do que provavelmente aconteceu.

A realidade é muito mais cheia de nuances. Ninguém parece entender, por exemplo, que o pai que sustenta e protege tem todo o direito de saber se não está fazendo isso por filhos que nem mesmo são dele. Que a divisão de papeis sexuais foi negociada entre os sexos, com a atribuição de direitos, privilégios e responsabilidades diferentes a homens e mulheres. Que os patriarcados originais surgiram por uma questão de sobrevivência em tempos extremos.

Por fim, mesmo a pesquisa extensa realizada pela autora não impediu a infiltração de ideologias no roteiro, que ela mesma admite esposar. 

Feminismo Delenda Est!

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