Marc Lépine e a Descartabilidade Masculina



No meu último post o autor do texto que traduzi referenciou um criminoso e um crime que talvez não sejam de conhecimento comum, então este aqui se destina a torná-lo conhecido, e trazer talvez alguma reflexão sobre assuntos que são de relevância ao ADH (ou MRA, ou ADHHM, etc.) médio.

Marc Lépine nasceu Gamil Rodrigue Liass Gharbi, em 26 de outubro de 1964. Ele mudou de nome aos 14 anos devido ao ódio que sentia de seu pai, que abandonou o relacionamento com sua mãe quando ele tinha 7 anos.

Ele ficou conhecido após cometer um assassinato em massa no dia 6 de dezembro de 1989, na École Polytechnique de Montréal (Escola Politécnica de Montreal), no Canadá. Abandonado pelo pai e negligenciado pela mãe, Lépine desenvolveu uma série de problemas psicológicos, que provavelmente estavam entre os fatores que o levaram a cometer o crime.

No dia do massacre, Lépine adentrou uma sala de aula de Engenharia Mecânica, no segundo piso da École, armado de um rifle semi-automático e uma faca de caça. Então, fez com que homens e mulheres se separassem, ordenando os cerca de 50 homens a sair e as 9 mulheres a ficar. Depois de brevemente discutir com elas suas ações, abriu fogo contra elas, matando seis e ferindo as outras três. Depois, ele foi para outras áreas do prédio e matou outras 8 mulheres e feriu mais 7, além de quatro homens.

De acordo com as sobreviventes, Lépine afirmou que estava “lutando contra o feminismo”, e que “odiava feministas, que haviam arruinado a vida dele”. A carta de suicídio que ele deixou não entra em muitos detalhes sobre as origens desse ódio, porém. Nela, ele afirma, entre outras coisas, que feministas “querem manter as vantagens das mulheres (p. e. seguros mais baratos, licença maternidade mais extensa precedida por uma licença preventiva, etc.) enquanto confiscam para si as dos homens.”

Por essa e outras afirmações, Lépine, junto a outro assassino, dessa vez o spree killer (matador impulsivo) Elliot Rodger, é frequentemente associado à manosfera em geral e aos Ativistas e Defensores dos Direitos Humanos dos Homens (ADHs) em particular.

Essa associação geralmente é baseada em pouco menos que o ódio declarado que Lépine sentia por feministas, ódio esse que, segundo elas, é compartilhado pelos ADHs. Elas acusam o movimento de alimentar o ódio e o ressentimento de jovens homens como Lépine e Rodger, que perturbados por seus próprios demônios internos, extravasaram sua raiva em violência contra mulheres (embora, no caso de Rodger, a maioria de suas vítimas tenha sido homens).

Ou seja, essa associação é baseada na noção que feministas têm dos ADHs, como virulentos odiadores de mulheres e LGBTs, que lutam pelo retorno dos papeis tradicionais de gênero e pela supremacia masculina. Uma visão totalmente imprecisa da realidade, claro. A oposição dos ADHs ao feminismo não se baseia em ódio gratuito a essa ideologia, mas no fato de que, ao contrário da ilusão igualitária que elas construíram ao redor de si mesmas ao longo do tempo, feministas promovem e apoiam leis e políticas públicas que discriminam abertamente os homens e meninos.

Mas esse não é o tema principal do meu texto hoje. Quero tratar do que aconteceu ao grupo de homens que, ao serem obrigados, sob a mira de um indivíduo armado e claramente perturbado, a deixar a sala de aula acima mencionada, foram vítimas posteriores de críticas árduas à sua não-intervenção no massacre.

Aponto aqui que não é minha intenção diminuir as mortes das vítimas e o sofrimento de seus familiares e demais entes queridos.  Pelo contrário, considero o massacre em questão mais um de uma série de desperdícios nefastos de vida humana, e simpatizo com aqueles que foram atingidos, direta ou indiretamente, por ele.

Entre esses estão, é claro, os homens dispensados por Lépine. Apesar dos próprios estudantes e funcionários homens da École demonstrarem remorso por não terem tentado impedir o massacre, uma das sobreviventes, Nathalie Provost, afirmou que nada poderia ser feito para prevenir a tragédia e que seus colegas não deveriam se sentir culpados.

Essa opinião, porém, não era compartilhada por muitos que vieram publicamente criticar os homens que estavam presentes por terem obedecido a um homem que, armado e alterado psicologicamente, os havia mandado sair da sala.

Imediatamente após o evento, um repórter questionou um dos rapazes por que eles “abandonaram” as mulheres ao seu destino, quando estava claro que elas eram os alvos pretendidos de Lépine. O Sargento de Armas René Jalbert, que havia persuadido o assassino serial Denis Lortie a se render durante seu ataque em 1984, disse que alguém deveria ter interferido, no mínimo para distrair Lépine, embora tenha reconhecido que “não se pode esperar que cidadãos comuns reajam heroicamente em meio ao terror”.

O colunista alinhado à direita Mark Steyn sugeriu que a inação masculina durante  o massacre era um reflexo de uma “cultura de passividade” que era prevalente entre os homens no Canadá, e isso permitiu o massacre conduzido por Lépine: “Assim, a imagem definidora da masculinidade canadense contemporânea não é a de Lépine/Gharbi, mas a dos professores e homens na sala de aula que, ao serem ordenados pelo atirador, humildemente obedeceram, abandonando suas colegas mulheres ao seu destino – um ato de abdicação que seria considerado impensável em quase qualquer outra cultura através da história humana."

Numa carta ao editor em resposta ao artigo do National Post titulado Why we remember The Montreal Massacre (Por que nos lembramos do Massacre de Montreal), o Sr. Rob Bredin comenta que ele e sua esposa foram a Montreal no dia que marcava o aniversário do massacre, e que um assunto que é pouco falado é a mudança cultural que vinha ocorrendo desde 1960: a “feminização” de jovens homens. Afirma ele que essa é a razão pela qual nenhum estudante masculino foi “homem o suficiente para tentar parar essa violência assassina naquele dia horrível em Montreal”. Rob conclui dizendo que qualquer dos homens presentes no momento dos assassinatos deveria ter interferido, e só não o fizeram porque essas exigências tradicionais de gênero caíram em desuso, substituídas por uma tolice “politicamente correta, sensível, não-masculina e descortês”.

Lendo isso, me lembrei da publicação no site brasileiro da A Voice For Men, escrita pelo advogado Eduardo Camargo, titulada “Homens não são os seguranças particulares das mulheres!”, em que ele relata um caso que estava defendendo, de um homem que, testemunhando uma agressão a uma  mulher, limitou-se a contatar a polícia, ao invés de tentar intervir, como muitas pessoas julgam ser a ação masculina apropriada diante de mulheres em apuros. Esse homem foi então indiciado pelo crime de omissão de socorro.

Esse pensamento é um dos que une esquerda e direita, conservadores e liberais: quando uma mulher está em apuros, é dever do homem, conhecendo ela ou não, potencialmente arriscar a vida para protegê-la. Ele revela também o que julgo ser um dos maiores paradoxos feministas que existem:

Elas afirmam que a maioria (ou todos) os problemas vividos pelos homens se devem à sua “masculinidade tóxica”, e que para resolvê-los, os homens tem de aprender a responder emocionalmente da mesma forma que as mulheres (a única forma possível e aceita de se responder emocionalmente). Porém, quando o proverbial excremento atinge o proverbial ventilador, elas se unem às mulheres e homens conservadores ao exigir que esses mesmos homens deixem tudo de lado (sua vida, suas escolhas, seus sentimentos, suas aspirações) e ocupem seus papeis tradicionais de protetores e provedores. E não enxergam essas duas coisas (valorizar seus sentimentos e sua própria vida e sacrificar-se pelo bem de outros) como mutuamente excludentes ou incompatíveis.

Acrescente-se a isso as pressões contrárias de diversos grupos políticos, não é à toa que os homens e meninos estão vivendo uma crise de identidade, e acabem desenvolvendo vários tipos de transtornos psicológicos, que por vezes acabam, infelizmente, levando às taxas galopantes de suicídio masculino.
 
Concluo esse com uma mensagem: Arriscar a vida por outros pode ser uma atitude nobre, mas de nada vale se for considerada uma obrigação que se contrai simplesmente por nascer com determinadas características imutáveis.

A vida dos homens e meninos importa. Nossos desejos e aspirações importam. Ninguém deveria se sentir compelido a arriscar tudo isso apenas para se sentir validado pelas mulheres ou pela sociedade em geral.

Feminismo Delenda Est!

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