O Caso James Wade


James e seu filho Joshua

O caso de James Wade, sobre o qual li pela primeira vez no excelente blog de compêndio histórico Unknown Gender History, é sob muitos aspectos perturbador, ao revelar a corrupção ideológica profunda dos serviços sociais de proteção à criança. Essa corrupção continua a influenciar esses serviços anos após o desfecho desse caso, não apenas nos EUA, mas em vários outros países, inclusive o Brasil.

Talvez por isso que os abusos cometidos pelas "autoridades" no caso de James Wade acabem soando familiares a muitos de nós que defendemos os direitos humanos de homens e meninos. 

Vale destacar que apesar de ser relativamente bem documentado e retratado em diversas publicações da época e de tempos mais recentes, não há menções ao caso na Wikipedia. Uma pesquisa rápida confirma que os verbetes relativos ao caso foram excluídos do site, sob a justificativa de que "foi discutido em publicações de viés ideológico (leia-se do viés ideológico ERRADO)" e que no geral não é um caso relevante (a Wikipedia é cheia de informação muito mais inútil). 

O texto a seguir é uma tradução da postagem do UGH, que mostra dois artigos, um deles originalmente publicado no panfleto "Heterodoxy" de janeiro de 1993 e o último publicado na edição de 26 de maio de 1994 do jornal San Diego Union. 



“Sequestradores Politicamente Corretos”: os crimes contra James Wade e sua família – 1989

(Artigo 1 de 2): Na manhã do dia 9 de Maio de 1989, Alicia Wade, de oito anos, acordou reclamando de dores profundas na região do abdome. Seu pai, James Wade, um homem de 37 anos alistado na Marinha, e sua mãe Denise, levaram a menina ao prédio do Centro Médico Naval (NAVCARE) em San Diego, Califórnia, onde inicialmente ela não podia ou não queria explicar o que aconteceu. O médico descobriu que as regiões anais e vaginais da criança haviam sido rasgadas em um ataque sexual e precisariam ser cirurgicamente reparadas. Quando informados disso, ambos os pais mostraram extrema angústia e começaram a chorar incontrolavelmente. O médico da NAVCARE imediatamente chamou o Serviço de Proteção à Criança (CPS) local.

O CPS imediatamente suspeitou de envolvimento familiar por duas razões: o estuprador, eles acreditavam, não removeu a criança de seu quarto, e Alicia não reclamou imediatamente por sentir dores. A funcionária da CPS interpretou as horas que os Wades passaram na NAVCARE como um atraso em reportar o crime, e portanto um sinal adicional de culpa.

Embora abalados pelo que havia acontecido com sua filha e também pelas insinuações de acusação que sentiram vindas das autoridades, os Wades cooperaram totalmente em uma entrevista com o CPS. Eles não podiam esconder o fato de que eles estavam acima do peso, o que autoridades em cuidados infantis frequentemente usam como evidência de negligência em geral. Eles não podiam esconder o fato de que Denise Wade havia sido molestada na infância e que James era um alcoólatra em recuperação que havia duas vezes “apagado” enquanto bebia em portos estrangeiros. Eles não sabiam que estavam agitando “bandeiras vermelhas” que mais adiante substanciaram suspeitas a respeito de envolvimento familiar no crime. Eles não tinham ideia que as autoridades já estavam começando a construir um caso contra eles e estavam mirando particularmente em James Wade, que era um alvo ambulante porque ele era um homem branco de meia idade e um militar além de seus outros defeitos.

Os Wades estavam mais interessados nos fatos. Durante um exame probatório no Centro para a Proteção da Criança, sua filha Alicia calmamente contou ao médico que um homem veio pela janela, afirmou ser o seu “tio”, levou-a a um carro verde e a “machucou”. Eles teriam uma noção melhor da provação que teriam pela frente se soubessem que no espaço do formulário médico para “acusação principal nas palavras da própria criança” o médico examinador ignorou o testemunho de Alicia e escreveu apenas que a criança demonstrou “negação total”.

Alicia forneceu uma descrição detalhada das roupas do atacante, cor dos cabelos e dos olhos, e mesmo de uma espinha na cara dele. James Wade, um cordial Missouriano, cooperou totalmente com a polícia, que coletou evidência incluindo impressões digitais manchadas e uma pegada parcial do lado de fora da janela de Alicia. Wade se submeteu a um polígrafo e a um “kit de teste de estupro”, que incluía uma amostra de sêmen. Ele não sabia o suficiente sobre o domínio jurídico obscuro em que ele estava adentrando para solicitar que a amostra fosse comparada com a calcinha suja de sêmen de Alicia, que a polícia recolheu, mas não examinou.

Depois de um longo interrogatório e numerosas acusações pela polícia, James Wade falou: “Vocês tem tanta certeza de que fui eu, mas se fui eu, com certeza eu não me lembro”. Os funcionários do CPS, que logo começaram a direcionar o exame dos Wades, repetidamente tiraram essa frase de contexto e traduziram-na como uma admissão de culpa, e não uma expressão de frustração, choque ou raiva. Eles não estavam interessados no fato de que quatro amigas de Alicia que viviam dentro de uma área de quatro quadras da casa dos Wades também haviam sido recentemente agredidas sexualmente e que, em cada caso, o atacante havia entrado pela janela do quarto. Cinco dias depois do estupro de Alicia, em outro projeto habitacional da Marinha, Nicole S., de cinco anos, havia sido seqüestrada por uma janela e atacada. Cerca de duas semanas após o ataque a Alicia, a polícia confirmou que alguém tentou invadir o quarto do filho de seis anos dos Wades, Joshua, pela janela. A despeito desses três episódios, James Wade foi o principal suspeito no estupro de sua filha.

Enquanto Alicia estava sendo preparada para cirurgia, guardas removeram Denise Wade à força do hospital. O cirurgião ficou enfurecido que a mãe não estava presente. Alicia estava chorando pelos seus pais, mas investigadores do Departamento de Serviços Sociais proibiram os pais de falarem com ela. Apesar de um pedido feito pelos Wades, ninguém explicou o que estava acontecendo com a garota, que assistentes sociais mandaram a uma terapeuta e colocaram em um lar adotivo. Na gíria da indústria do abuso infantil, o que aconteceu com os Wades é chamado de uma “paistectomia1[o1] ”.

Naquele momento, os Wades não sabiam que a provação deles era parte de uma síndrome nacional que começou em 1970 com o Ato Walter Mondale de Prevenção e Tratamento do Abuso Infantil e ganhou impulso nos últimos poucos anos com a proliferação de ideias feministas sobre os males do patriarcado e o pensamento politicamente correto sobre a família nuclear como um locus classicus[o2]  de opressão sexual e violência. Alimentado por verbas estatais, o sistema de proteção à criança cresceu a proporções imensas, como o monstro que Woody Allen descreve em O Dorminhoco como tendo “o corpo de um caranguejo e a cabeça de um assistente social”.

No livro Inocentes Feridos: As Vítimas Reais da Guerra Contra o Abuso Infantil, Richard Wexler examina o sistema nacional de proteção infantil e documenta uma série de histórias de terror. Pais têm sido acusados de abuso infantil por se atrasarem ao buscar seus filhos na escola, deixá-los tomar café da manhã no McDonalds muitas vezes, ou não deixá-los assistir televisão depois das 7:30. Nesse mundo do País das Maravilhas, os princípios operantes têm menos a ver com a Constituição e mais com o máximo de Lavrenti Beria, chefe da NKVD (Narodniy komissariat vnutrennikh diel, ou Comissariado do povo para assuntos Internos) de Stálin: “Me traga o homem, e eu descobrirei o crime”.

Wexler mostra como as estatísticas que declaram a existência de uma epidemia de abuso infantil são baseadas em casos reportados dos quais 60 por cento são falsos, totalizando um milhão de falsas acusações todo ano em todo o país. Na atmosfera de estado policial da proteção à criança, informantes permanecem anônimos, e os acusados permanecem marcados com um “A” escarlate mesmo depois que são inocentados dos crimes. É um sistema cheio de abusos e preenchido com a arrogância do poder, ainda assim o estado policial da proteção à criança continua a nos garantir que o abuso infantil é uma “tradição Americana” para a qual o único remédio é uma intervenção massiva e agressiva pelo estado.

O caso da família Wade explicita completamente todos os defeitos intrínsecos do sistema. O relato a seguir é baseado em entrevistas originais com as vítimas, funcionários públicos, e alguns relatos da imprensa de uma excelente série investigativa no jornal San Diego Union. Sua principal fonte, porém, é uma série de relatórios bastante detalhados pelo Grande Júri  do Condado de San Diego, que vem investigando o sistema de proteção à criança desde 1988. Tudo considerado, o júri recebeu o testemunho de centenas de testemunhas de todas as áreas do sistema: o judiciário (Cortes Superiores e Cortes de Apelação), mesa de defesa, mesa de apelação, defensores públicos, Vara de Família, Centro de Proteção à Criança, Promotor e uma série de vítimas. Os jurados também passaram muitos dias observando processos judiciais, visitando “casas de adoção” para crianças, e comparecendo a reuniões da Comissão de Justiça Juvenil. O júri também recebeu testemunho de alguns assistentes sociais que queriam fazer denúncias de corrupção. Tais assistentes tiveram de testemunhar sem notificar seus superiores, para que não sofressem represálias.

Uma instituição na qual os Wades se encontraram enredados foi o Centro de Proteção Infantil de San Diego. O Diretor é o Dr. David Chadwick, que foi descrito na imprensa local como sendo um “fanático definitivo” por um sistema governado pelo pensamento politicamente correto. Chadwick disse uma vez a um comitê legislativo do estado que sua organização realizava exames probatórios, não em uma busca desinteressada pelos fatos, mas a fim de “provar abusos”.  Repórteres do Union encontraram vários exemplos onde o Centro de Chadwick “diagnosticou abuso sexual quando outras autoridades médicas insistiam que não havia nenhum”.

Através da atuação de Chadwick, os Wades aprenderam o conceito de “negação”. Ao negar que James Wade havia estuprado sua filha, o casal era visto, não como afirmando inocência que poderia ser julgada por uma revisão dos fatos, mas ao invés, como estando “em negação”. E “negação”, como o Grande Júri apontou, é considerada pelo sistema como uma evidência de culpa, uma tática que o estado policial da proteção à criança compartilhava com a KGB e outros caçadores de bruxas profissionais.

“Negação” é a versão do sistema de proteção infantil do moto perpétuo, um encantamento que faz com que a presunção de inocência desapareça. Richard Wexler registrou a clássica discussão a seguir, entre uma assistente social e uma mulher chamada Susan Gabriel, cujo marido Clark havia sido acusado de abuso sexual:

ASSISTENTE: Nós sabemos que o seu marido é culpado, você tem de forçá-lo a admitir isso.
GABRIEL: Como vocês sabem que ele é culpado?
ASSISTENTE: Nós sabemos que ele é culpado porque ele diz que é inocente. Pessoas culpadas sempre dizem que são inocentes.
GABRIEL: E o que pessoas inocentes dizem?
ASSISTENTE: Não é nosso trabalho julgar culpa ou inocência, nosso trabalho é colocar famílias juntas de novo.
GABRIEL: Então por que não estão fazendo isso com a gente?
ASSISTENTE: Porque Clark não quer admitir que ele seja culpado.

Se, como foi o caso com Denise Wade, a esposa fosse tão teimosa a ponto de apoiar o seu marido acusado, ela é julgada como sendo co-dependente e “indulgente” com a negação. E se a criança nega a acusação, isso é meramente considerado como parte da “síndrome da proteção do abuso sexual”. Como o Grande Júri mais tarde reportou, a única negação de Alicia Wade era de que seu pai havia sido o atacante. A possibilidade de que Alicia estava contando a verdade e que James era inocente nunca passou pela cabeça do estado policial da proteção à criança.

Uma vez registrados no Kafkaesco[o3]  Centro para Proteção Infantil, os Wades logo se descobriram nas mãos dos assistentes sociais. Muitos membros dessa profissão (cerca de 70 por cento em San Diego) são mulheres, e de acordo tanto com as vítimas quanto observadores de longa data do sistema, muitas chegam ao trabalho enxergando a si mesmas como liberadoras, resgatando os inocentes de um calabouço opressivo e dominado pelos homens, chamado de família.

Assistentes sociais não são obrigadas a gravar suas entrevistas, e suas declarações, muitas vezes usadas no tribunal, frequentemente incluem boatos como evidências, e não são feitas sob a pena de perjúrio. Depois de peneirar montanhas de evidências, o Grande Júri descobriu que assistentes sociais “mentem rotineiramente, mesmo sob juramento”. E há “numerosas ocasiões” nas quais assistentes sociais desobedeceram a ordens judiciais. Tudo está do lado das assistentes. Elas simultaneamente obtêm evidências para a acusação e “prestam serviços” à família do acusado (serviços pelos quais o acusado acaba pagando parcial ou totalmente a conta). As famílias entram no processo ávidas por cooperar, mas logo se vêem horrorizadas ao descobrir que suas declarações foram distorcidas, tiradas do contexto e usada contra elas mesmas.

No caso dos Wades, por exemplo, uma assistente social disse ao casal no início que se eles demonstrassem qualquer emoção (diante das circunstâncias, uma reação perfeitamente natural) eles não seriam autorizados a ter contato com a criança. Quando eles agiram de acordo, a mesma assistente social acusou-os de estarem “despreocupados” com sua filha, usando essa alegação no tribunal. 

Jim Wade descobriu-se “horrorizado pelo poder absoluto  que esses indivíduos podem exercer sobre as vidas e liberdades de um cidadão americano”. Todos os relatórios do Departamento de Seguridade Social sobre a família Wade deixaram de incluir qualquer coisa positiva. Eles não mencionaram que a bebedeira de Jim não era uma fonte de problemas, e que ele não estava bebendo no dia do ataque. Não havia referência alguma ao seu histórico na Marinha, que, exceto pelo seu excesso de peso, foi descrito como “soberbo”. Relatórios também ignoraram a creche dirigida por Denise Wade, que funcionava sem problema algum, e ninguém se importou em entrevistar os pais das crianças que ela cuidava. Relatórios também deixaram de mencionar que Alicia era uma ótima estudante, que havia recentemente sido nomeada Estudante do Mês na sua escola primária. Não houve menções à participação da família em atividades comunitárias ou da igreja.

Em uma entrevista filmada, Alicia foi questionada sobre com quem ela se sentia mais segura. “Com minha mãe, meu pai e meu irmão”, ela respondeu. A transcrição da fita, porém, cortou a referência ao pai. Um oficial de proteção infantil mais tarde reconheceu que ele nunca se importou em revisar o vídeo.

Clichês feministas e fanatismo antifamília não são as únicas forças que movem o sistema. Aqui, como em abusos políticos, a regra de Watergate[o4]  se aplica: siga o dinheiro. Terapeutas que falham em corroborar as alegações das assistentes sociais podem rapidamente se ver de fora de referências judiciais lucrativas. E referências aplicadas a famílias militares são particularmente lucrativas, pois elas são financiadas pelos fundos infindáveis do Programa Civil de Saúde e Medicina dos Serviços Armados (PCSMSA). O condado de San Diego paga terapeutas indicados pela corte $40 por hora, mas o PCSMSA paga quase o dobro: $78,60 por 45 minutos de psicoterapia. Os Wades iam à terapia duas vezes por semana.

A terapeuta de Alicia era Kathleen Goodfriend do Grupo de Aconselhamento da Vila de La Mesa, que trabalhou no caso integralmente sem qualquer supervisão. Como as assistentes sociais que agora tateavam pelas vidas dos Wades, Goodfriend ignorava a evidência e assumiu mais ou menos automaticamente que Jim Wade havia sido o atacante, embora sua filha continuasse a negar isso firmemente em suas sessões. Recebendo mais de $11.000 em verbas do estado só por esse caso, Goodfriend começou a implacavelmente fazer lavagem cerebral em Alicia Wade, agora totalmente isolada de sua família, pressionando-a a nomear um “perpetrador aceitável”. Ou seja, seu próprio pai.

O Grande Júri eventualmente requisitou as anotações de Goodfriend, que continha muitos comentários sobre o quanto Alicia “gostava” de sua terapeuta. Mas o testemunho de Alicia em si torna claro que a criança apenas queria ir para casa. O Grande Júri também ficou alarmado por Goodfriend ter ensinado a criança sobre masturbação “sem qualquer contribuição parental ou interesse aparente por parte da criança”.

Enquanto Goodfriend trabalhava na mente de Alicia, as assistentes sociais dos Wades estavam trabalhando no futuro dela. Elas rejeitaram os avôs, avós, tios e tias de Alicia, o pastor da igreja da família e o advogado do pai como possíveis guardiões de Alicia por conta de suas “ligações com os pais”. Uma assistente social disse à avó de Alicia que ela nem deveria perder o tempo dela vindo a San Diego porque o seu filho James era culpado de estuprar Alicia, que não iria voltar pra ninguém da família. Ao invés disso, eles iriam colocá-la em um lar adotivo e a assistente social e Goodfriend iriam controlar todo o acesso a ela.

Crianças são colocadas em lares adotivos o mais rápido possível porque esse ato abre as comportas dos fundos federais. Pais adotivos recebem $484 por mês por crianças com idade de 5 a 18 anos, quase o dobro que uma mãe dependente do estado recebe por seus próprios filhos[o5] . Casos que carecem de cuidados especiais podem trazer $1.000 por mês. E todos esses fundos são isentos de impostos. Alguns pais adotivos são interessados e carinhosos, mas outros são empreendedores no que o Grande Júri chamou de “negócio de corretagem de bebês”. Eles dependem da boa vontade de assistentes sociais para conseguir e manter os pequenos seres humanos que fazem com que os cheques do governo continuem chegando.

A segunda mãe adotiva de Alicia Wade – por razões não explicadas, a garota foi traumaticamente removida da primeira família onde ela havia sido colocada – acreditou na história dela sobre um homem entrando pela sua janela. Ela buscou testemunhar que a criança não apenas não tinha medo algum do seu pai, mas que desesperadamente queria voltar para casa. Isso enraiveceu as assistentes sociais, que prontamente arrancaram Alicia daquela casa e reportaram uma “infração” ao departamento de licenciamento de adoções. As assistentes então colocaram Alicia em uma terceira casa. Esta tinha uma diferença: os pais adotivos estavam tentando adotar uma criança através do programa de “entrega rápida”. Alicia foi oferecida como uma candidata óbvia.

A essa altura, os Wades sabiam que estavam sendo feitos de reféns. Para conseguir sua filha de volta, eles tinham de cooperar totalmente com burocratas acusatórios que os consideravam culpados desde o início.

James Wade voluntariamente se submeteu a testes de polígrafo. Um desses testes resultou inconclusivo; ele passou nos outros dois e o examinador não encontrou nenhuma intenção de trapaça. Então havia cerca de 700 questões para responder, parte de uma bateria de testes que incluía o Inventário Sexual de Thorne, o Inventário Sexual Multifásico, a Escala de Atitude Sexual, a Pesquisa de Opinião Sexual e a Escala de Conforto Contactual. Aqui estão algumas das questões do tipo “verdadeiro” ou “falso”:

“Eu ocasionalmente faço sexo com um animal.”
“Eu fico mais excitado e emocionado em machucar uma pessoal do que com o sexo em si.”
“Eu já fiquei sexualmente estimulado ao cheirar ou sentir uma roupa de baixo de mulher”.
“Eu já me masturbei ao fazer uma ligação obscena”.
“Mulheres mais jovens têm vaginas mais apertadas que mulheres mais velhas.”
“Às vezes eu não consigo me controlar e acaricio uma ou mais das crianças em minha família”.

E então, perto do final, um toque suave: “Eu já fantasiei sobre matar uma pessoa durante o sexo”.

Virtualmente todos os homens acusados de abuso infantil em San Diego devem então suportar um tempo no “pletismógrafo peniano”. Nesse procedimento, um terapeuta coloca o acusado em uma cabine e mostra a ele como conectar o seu pênis um medidor de tensão de mercúrio. Então o terapeuta apaga as luzes e começa uma procissão de imagens eróticas que pode incluir pornografia infantil, o tempo todo verificando mostradores que medem a ereção. Durante a porção do teste em que são mostrados vídeos, o operador para as imagens, pergunta ao sujeito como ele se sente, e espera até que seu órgão “amoleça” antes de continuar. (Uma assistente social de San Diego que administra esse teste compôs faixas de áudio contendo pedofilia, com vinhetas de pais fazendo sexo oral em suas filhas.) Ao fim do teste, a máquina cospe uma “contagem falométrica”.

Operar um pletismógrafo peniano também é um negócio lucrativo, com alguns terapeutas cobrando $ 1.000 por sessão. Aqueles financiados por seguros militares se vêem agendados para mais consultas que outros. Outro testador afirma que pode usar o mecanismo para oferecer “recondicionamento orgásmico” para ajudar o sujeito a “aprender a se tornar sexualmente responsável”. Ele está atualmente tentando convencer a Marinha a deixar que ele trate os criminosos de Tailhook[o6] . Especialistas estão desenvolvendo uma versão para mulheres que mede o ingurgitamento dos lábios vaginais junto a um medidor que toma a temperatura da área vaginal.

Medições penianas são parte de uma inquisição que difere da caça ás bruxas de Salem e dos Julgamentos de Moscou pelo fato de que os acusados devem pagar adiantado pelo privilégio dúbio de serem tão humilhados. Os Wades se viram forçados a aceitar todos os tipos de “serviços” tais como aconselhamento, terapia, aulas de criação de filhos e “grupos de abusadores”. Embora sejam os contribuintes que pagam a maior parte dos custos, o sistema faz com que muitas das cobranças voltem à família através de um esquema chamado “Recuperação de Receita”. Os custos que os Wades tiveram de bancar, antes de serem cobrados pelos custos de adoção, estavam em $260.000, que não é o tipo de trocado que um marinheiro costuma ter guardado. Alguns dos acusados têm seguro; outros não.  

Uma vez presos ao sistema judicial, além disso, os Wades se viam em uma desvantagem constante ao tentar estabelecer sua inocência. Diferente da acusação, eles não tinham nenhum dinheiro para pagar por testemunhas “especialistas”. (Jim Wade mais tarde somou suas despesas legais em $125.000, e seu seguro não cobria esses custos.) Quando os Wades se deram conta da animosidade antifamília profunda do sistema, eles fecharam um acordo de não contestarem uma acusação de “negligência”, parte de um acordo que iria eventualmente fazer com que sua filha voltasse para casa. Mas depois que o acordo foi feito, o condado disse que, baseado nas recomendações de Kathleen Goodfriend, Alicia não iria voltar para casa.

O advogado dos Wades argumentou que os pais deveriam ter solicitado que o acordo fosse anulado e pediram por um julgamento jurisdicional. O DSS contra-argumentou que  se eles tentassem essa tática, o DSS iria também se apossar do seu filho Joshua e “cavar ainda mais o buraco” em que colocavam sua família. Essa ameaça constituiu uma oferta que os Wades não podiam recusar.

Mais tarde, como parte da revisão do caso Wade, o Grande Júri descobriu que o sistema juvenil inteiro se caracterizava por “arquivos confidenciais, tribunais fechados, ordens de mordaça[o7]  e imunidade estatutária” e que tinha “se isolado a um grau sem precedência do nosso sistema de jurisprudência e liberdades básicas”. Disse o ex-perito judicial William Burns: toda vez que você tem sigilo você tem as sementes da corrupção... as pessoas que estão por trás de portas fechadas podem fazer o que bem entenderem. “E no Tribunal de Menores, elas fazem.” Evidências contrárias ao posicionamento do sistema, como o Grande Júri descobriu, são “excluídas ou ignoradas” e mais de 98% das petições do sistema são concedidos. (Durante os procedimentos do caso em questão, por exemplo, a acusação objetou à descrição da própria Alicia de seu atacante como sendo um “boato” e o tribunal manteve a objeção.)
De outubro de 1989 até junho de 1990, Alicia não teve contato algum com seus pais. Enquanto os procedimentos judiciais se arrastavam, devastando os Wades financeiramente e emocionalmente, assistentes sociais determinaram que Alicia era “adotável” e que uma audiência de rescisão de direitos paternos se fazia apropriada.

Todo esse tempo, a ávida Kathleen Goodfriend ainda estava interrogando Alicia. Uma de suas táticas de terapia era dizer que ela sabia que o pai dela era o atacante e, portanto não “faria mal nenhum” se ela contasse.  Mas a criança persistiu em sua história detalhada sobre o intruso. Alicia continuava a falar positivamente de seu pai, dizendo: “Eu amo meus pais e eu quero vê-los.” Conforme a data para a audiência de doze meses se aproximava, Goodfriend aumentou seus esforços, montando uma espécie de sistema de ataque em equipe, ao ordenar que sua mãe adotiva também pressionasse a criança a “se abrir”.

Treze meses de isolamento e lavagem cerebral eventualmente pagaram seu preço. No final de Junho de 1990, a garota de nove anos sucumbiu. Em uma audiência mais tarde, ela disse que não podia agüentar mais. A gravação deixa claro que ela fez isso só para tirar a terapeuta de suas costas.

Depois da “revelação”, todo o questionamento de Alicia parou. A “terapia” de Goodfriend tinha alcançado seu objetivo. Os pais adotivos imediatamente levaram Alicia em uma viagem de um mês à Disneylândia, como um prêmio óbvio por ter entregado seus pais, bem como uma distração para que ela não se retratasse. A esse ponto, Denise Wade, cuja assistente social vinha pressionando para que deixasse seu marido, teve de ser hospitalizada para prevenir suicídio.

Em dezembro, James Wade foi finalmente formalmente preso pela acusação de ter estuprado a sua filha e se viu encarando a possibilidade de um período de 16 anos de prisão. A Torquemada[o8]  nessa inquisição seria a Delegada do Conselho Distrital, Elizabeth Jane Via, cuja filosofia legal foi sumarizada em um comentário, feito em outro caso judicial: “Só porque nós não encontramos evidências de que este homem molestou aquela criança isso não significa que ele não é culpado”.

Via aperfeiçoou uma das estratégias chave no sistema de abuso infantil: vitória pelo cansaço. Seus colaboradores nos serviços sociais cultivam as crianças que ela está tentando remover de suas famílias para seus pais adotivos favoritos, e retardam a “reunificação” até que a criança se “vincule” aos novos pais. Então eles usam esse testemunho, suportado pelo testemunho de terapeutas amigáveis, para bloquear a reunificação familiar e justificar a adoção.  De acordo com um investigador, o estado policial da proteção à criança diz a pais adotivos para que levem as crianças a férias longas e freqüentes. Então eles viram pro outro lado e acusam os pais naturais de não verem seus filhos o suficiente. Foi Via que tentou justificar remover o irmão de Alicia, Joshua, da casa dos Wades.

A perseguição fanática de Via por James Wade envolveu uma ironia que logo iria adquirir um peso esmagador. Antes de lidar com o caso Wade, Via foi a Promotora Distrital que processou o homem que as autoridades agora acreditam ter sido aquele que atacou Alicia. Via estava portanto totalmente ciente de que Albert Raymond Carder vinha molestando meninas na vizinhança dos Wades, e que o seu modus operandi envolvia entrar por uma janela, cometer o crime e sair sem deixar rastros. No caso de Nicole S., atacada cinco dias depois de Alicia, o atacante dirigia um caminhão branco, o que não era consistente com o testemunho de Alicia sobre um carro verde. Mas foi descoberto que na época do ataque, Carder realmente dirigia um carro verde, o qual ele reportou como tendo sido roubado não muito tempo depois. O laudo do carro roubado nunca foi entregue aos detetives, que aparentemente nunca executou uma verificação de veículos que Carder possuiu.

Via ordenou que fossem retiradas amostras de sangue de Carder, que eventualmente ela julgou e condenou. Porém mais tarde, quando Via foi transferida para o escritório do Conselho Distrital e começou a processar James Wade, ela negou que havia ordenado a retirada dessas amostras e disse que não havia conexão alguma entre os casos de Nicole e Alicia Wade (O júri considerou as ações de Via como incompreensíveis, e recomendou que o estado a investigasse por possíveis conflitos de interesse e violações éticas.)

Nos procedimentos de pré-julgamento, a polícia finalmente examinou a calcinha com manchas de sêmen de Alicia, dois anos após o ataque, e determinou que ela estava em condições de ser testada. Demorou vários meses para que os testes de DNA fossem concluídos, mas eles finalmente confirmaram que James Wade não podia ter sido o homem que atacou Alicia. Foi uma exoneração muito clara, mas o escritório da Promotoria, onde Via tinha trabalhado anteriormente, ordenou que os testes fossem repetidos, e o DSS continuou a proibir contato entre o pai e a filha.

O agressor sexual condenado Albert Raymond Carder, por outro lado, estava entre os cinco por cento da população cujo perfil genético batia com aquele das manchas. O seu tamanho de sapato batia com a impressão deixada do lado de fora da janela de Alicia. Mas mesmo essas evidências poderosas não eram o suficiente. Uma vez que o estado policial da proteção à criança não podia mais negar que uma terceira parte era a responsável pelo ataque, o sistema direcionou seus recursos consideráveis para garantir que, por mais fortes que as evidências da inocência de Jim Wade fossem, Alicia ainda não retornaria à sua família.

O Grande Júri mais tarde identificou uma “corrida contra o tempo para arranjar a adoção de Alicia antes que os resultados dos exames de DNA estivessem disponíveis”. Quando o resultado da evidência ficou conhecido, Jane Via resistiu vigorosamente a uma moção da defesa para que a audiência que acabaria com os direitos paternos dos Wades fosse adiada. Cooperando com Via, o Perito da Corte Yuri Hoffman se mostrou disposto a fazer com que Alicia fosse adotada mesmo quando a inocência de James Wade tivesse sido estabelecida.

Em novembro de 1991, dois anos e meio depois que essa provação começou, o escritório da Promotoria retirou as acusações contra James Wade. Então o juiz Frederic Link emitiu uma rara “declaração de verdadeira inocência” para o combalido marinheiro, a qual a promotora Cathy Stevenson tentou sem sucesso se opor no tribunal. Wade solicitou à corte para que a acusação original de negligência, que havia sido parte de seu acordo de apelação desesperado, fosse anulada a fim de que seu nome ficasse limpo e o caminho ficasse livre para o retorno de Alicia. Wade falou que a declaração de inocência foi como sair da prisão. Mas os problemas dele não tinham acabado ainda.

Como resultado dessa provação, Wade havia se tornado um pária na comunidade, assim como o irmão de Alicia, Jason[o9] , sendo que um vizinho havia proibido seus filhos de brincarem com o “filho de um pervertido”. Wade mais tarde descreveu como tendo existido “noites insones, olhares acusatórios, lágrimas sem fim, tensão em nossa família, dúvidas plantadas nas mentes de nossos amigos”. Os custos legais, disse Wade, “roubaram todas as minhas economias, bem como as de meus pais”. E é claro, havia a ausência de sua filha durante um período formativo crucial na vida dela.

Mas a politicamente correta Jane Via não acreditava que os Wades haviam sofrido o suficiente. Via argumentou que a descoberta da inocência dos pais “não importava” porque a acusação original não tinha sido de abuso sexual, mas de negligência, que ainda fornecia justificativas suficientes para a adoção de Alicia. Os Wades apelaram ao Grande Júri por ajuda, e foi graças à sua intervenção nos últimos minutos do segundo tempo que Alicia escapou de ter sido dada em adoção para sempre.

Promotora E. Jane Via, que violou os direitos civis de James Wade

Em 23 de novembro, Alicia Wade foi reunida com sua família. O sistema que supostamente operava de acordo com o seu melhor interesse devolveu a menina para casa usando um remédio ao qual ela era alérgica, sem os óculos que ela usava quando foi tomada de seus pais e nenhum registro de exame oftalmológico. Dois dias depois, no Dia de Ação de Graças, Alicia fez 11 anos.

O Grande Júri descobriu que o caso Wade, que eles disseram que não precisava nem estar no sistema, estava longe de ser incomum. Apenas na área de San Diego, os jurados encontraram 300 casos com elementos similares. Não existe nenhum sistema a prova de erros ou enganos, mas o Júri ficou perturbado com o fato de que ao invés de tentar corrigir esses problemas, “o sistema parece projetado para criá-los ou promovê-los, deixá-los sem serem testados e sem correções, e por fim negá-los ou arranjar desculpas para eles, tudo em nome da proteção infantil”. Os jurados descreveram o sistema como fora de controle, sem freios ou contrapesos.

Encarando o peso esmagador da evidência, o Grande Júri criticou diversas agências, entre elas o DSS, que admitiu os problemas e começou a fazer reformas, incluindo a ênfase em reunificação familiar. No escritório da Promotoria, o caso foi diferente. O promotor de San Diego, Edwin Miller, é um membro do conselho da Fundação de Prevenção ao Abuso Infantil, e o ex-chefe de sua unidade de abuso infantil, agora um juiz local, é Harry Elias, casado com Kee McFarlane, cujas entrevistas com crianças foram a base para o caso de abuso infantil da Pré escola McMartin[o10] , o mais longo e mais caro julgamento na história Americana. (Veja “Lembrança de Crimes Passados, na página 7) O escritório de Miller justificou a maneira como lidou com o caso e defendeu a vingativa Jane Via, mas ao menos admitiu que erros foram cometidos. Por outro lado, o Conselheiro Distrital Lloyd Harmon, outro chefe de Via, não admitiu nenhuma má conduta, nem mesmo a possibilidade de injustiça. A resposta de Harmon ao Grande Júri, por incrível que pareça, manteve que o caso Wade “foi lidado de uma maneira completamente profissional e com a devida consideração com os direitos e interesses de todas as partes”.

Enquanto o estado policial da proteção à criança se unia em defesa de seus próprios interesses, a família Wade se debatia com as dívidas e tentava lidar com os danos emocionais. Porém, com a exceção do Perito Yuri Hoffman, nenhuma das pessoas que tentaram arruinar as vidas dos Wades se adiantou para se desculpar. Nenhuma forma de compensação foi oferecida. E até onde se pode determinar, ninguém foi demitido ou mesmo disciplinado por conta do caso Wade. Em dezembro de 1992, testes mais sofisticados de DNA encontraram uma correspondência de 100% entre o sangue do abusador condenado Albert Raymond Carder e os marcadores genéticos na evidência de sêmen do caso Wade. Mas até 1º de janeiro de 1993, o escritório da Promotoria ainda não havia apresentado queixa de estupro contra Carder, provavelmente  por que ao fazer isso eles estariam reconhecendo a legitimidade do processo que James Wade havia aberto contra o Condado.

O que aconteceu com Jane Via? Foi tudo mais do mesmo, a tragédia de James Wade não alterou sua atitude ou procedimentos. Em novembro de 1992, Via representou o DSS no caso de Gavin O’Hara, cuja filha havia sido apreendida por uma assistente social e colocada aos cuidados da irmã de tal assistente social. O’Hara foi informado de que o fato de ele ser um Mórmon e presumivelmente crente no patriarcado, tornava mais provável que ele abusasse de sua filha. A assistente social e sua irmã, conforme depoimentos demonstraram, haviam discutido tomar a menina dele mesmo antes de ela ter nascido. Quando Yuri Hoffman concedeu a custódia ao pai natural, Via ficou enfurecida e solicitou nova audiência baseada na crença de um terapeuta de que a criança estava sofrendo de “ansiedade da separação”. Era o mesmo jogo de atrito que ela jogou com James Wade, mas dessa vez o tribunal não permitiu que isso acontecesse. O Juiz Richard Huffman disse que um “sistema idiota” havia “brutalizado” uma criança e sarcasticamente rebaixou Via, para o deleite indisfarçável das pessoas na sala do tribunal.

E a terapeuta/instrutora de masturbação, Kathleen Goodfriend? Pode parecer que fazer lavagem cerebral em uma criança por mais de um ano para fazer com que ela acusasse o pai de um crime iria ao menos desqualificar alguém de receber referências judiciais. Mas a Corte Juvenil ainda está oferecendo a Goodfriend  um fornecimento estável de clientes lucrativos. Quando questionado se o desempenho de Goodfriend no caso Wade mereceria algum tipo de censura, a resposta do oficial responsável foi que a terapeuta era “inocente até que se provasse culpada”, precisamente a presunção que foi negada aos Wades.

Jim Wade se aposentou da Marinha, e mudou-se para a fazenda dos pais em Missouri. Lá, ele espera curar as feridas e construir uma nova vida entre as pessoas com quem ele cresceu. Ele abriu um processo contra o Condado de San Diego, dizendo “Eu só quero poder devolver o dinheiro que meus pais me deram para que eu pudesse me defender”. Embora seja uma pessoa difícil de enraivecer, Wade não obstante diz a qualquer um que pergunte que ele acredita que o sistema de proteção à criança está cheio de “cafetinas e parasitas vivendo à custa da miséria dos outros”.

A provação de Wade foi dramática, mas não procure por ela nas listas de filmes da semana. A história foi oferecida e considerada por toda parte em Hollywood, mas ninguém quis ficar com ela. “A razão das redes a rejeitarem”, disse Wade “foi que elas não queriam mostrar ninguém se livrando de uma acusação de abuso infantil. Eles entenderam tudo errado, porque a história não é sobre isso.”

Jim Wade também embarcou em uma missão de alertar outros sobre o sistema. Ele apareceu no “Larry King Show” e outros programas, mas ele cita o artigo de opinião que ele escreveu para o San Diego Union, logo depois que a sua família foi reunida, como melhor representando o que ele quis dizer: “Fiquem atentos, cidadãos de San Diego e todos os Americanos. Há uma criatura correndo descontrolada em seu meio, que pode roubar seus filhos, seu futuro financeiro e muito provavelmente, sua liberdade pessoal, como fez com a minha.”



Pai fecha acordo de $2 milhões em caso de estupro


(Artigo 2 de 2): Um ex-marinheiro acusado falsamente de estuprar sua filha vai ganhar $2,5 milhões sob um acordo provisório de sua ação judicial contra agências do governo e alguns indivíduos, conforme informado à Tribuna da União de San Diego.

De acordo com os termos do acordo, a cidade e o condado vão pagar combinadamente o valor de $1 milhão, psicoterapeuta Kathleen Goodfriend vai pagar $1 milhão e os pais adotivos Carla e Michael Gregory vão pagar $500.000, de acordo com as fontes.

Se aprovado pelo Conselho da Cidade de San Diego e supervisores do condado, o pacto vai concluir uma saga de cinco anos da tragédia pessoal e incompetência pública no qual Jim Wade, ao invés de um suspeito muito mais provável, foi acusado de estupro; sua esposa, Dee, tentou o suicídio; e sua filha, Alicia, quase foi adotada.

Decisões anteriores no caso, envolvendo o Hospital Infantil e vários advogados que representaram os Wades, totalizaram $1,2 milhões, colocando o pacote total de acordos em cerca de $ 3,7 milhões.

Jim Wade, encontrado em um jogo de basebol no Estádio Busch em St. Louis, chamou o acordo de uma bênção mista.

“Eu não estou particularmente feliz’, disse ele, “Havia uma parte muito grande de nós que queria levá-los a julgamento para deixar que todo mundo soubesse o que eles fizeram.

Sob os termos do acordo, disse Wade, uma porção significante do dinheiro será colocada numa conta de confiança que sua filha, agora com 13 anos, e filho Joshua, com 11, vão poder acessar quando fizerem 18 anos. Outra grande porção vai para o pagamento dos advogados, ele disse.

Wade, com 39 anos, que foi declarado inocente por um juiz depois que testes genéticos provaram que ele não era o estuprador, se aposentou da Marinha depois de 20 anos de serviço e se mudou com sua esposa e dois filhos para sua pequena cidade natal no Missouri.

Na ação judicial de 200 páginas apresentada em favor da família, o advogado Milton J. Silverman solicitou indenizações monetárias de “não mais que $100 milhões” de mais de 12 pessoas, incluindo assistentes sociais, detetives da polícia e promotores.

A ação os acusava de falso aprisionamento, acusações maliciosas, conspiração, negligência, má conduta, violações dos direitos civis, acobertamentos e fraude.

Silverman e os outros advogados envolvidos no caso disseram ontem que eles não iriam comentar – como ordenado pelo Juiz do Tribunal Superior Herbert Hoffman, que supervisiona as discussões de acordo – até que o acordo esteja completo, o que deve acontecer na próxima semana.

O caso, divulgado pela primeira vez em outubro de 1991, provocou críticas generalizadas do sistema local de proteção à criança. O grande júri de 1991-92 do Condado de San Diego passou meses investigando o caso e o rotulou como um “show de horrores”.

“Raiva é uma boa palavra para descrever o sentimento do grande júri sobre este caso.” Richard B. Macfie, o presidente dos jurados, disse ontem. “Foi uma trágica obstrução da justiça.

“A evidência mostra que os supostos especialistas envolvidos descartaram o que a criança havia dito e impediram qualquer procedimento investigativo razoável.”.

Alicia foi estuprada e sodomizada na noite de 8 de maio de 1989, quando ela tinha 8 anos. Ameaçada de morte por seu atacante se ela contasse a alguém, a criança comentou com sua mãe na manhã seguinte que só estava sentindo dores quando urinava.

Um exame médico descobriu danos tão severos que requeriam cirurgia.
Alicia disse à polícia, assistentes sociais e um médico que um homem havia entrado em seu quarto em um complexo habitacional Naval em Serra Mesa e a carregou para fora, “machucou-a”, e trouxe-a de volta.

Investigadores não acreditaram na história dela, porém, mesmo ela tendo persistido nela por mais de um ano. Ao invés, eles se focaram no pai, e removeram Alicia de sua casa. Ela foi colocada num lar adotivo com os Gregorys.

As autoridades suspeitaram de Wade por diversas razões. Ele era da Marinha, onde autoridades nos cuidados infantis acreditam que famílias são suscetíveis a tensões e instabilidade que pode contribuir para abusos. Wade é um alcoólatra em recuperação, também, e sua esposa tem um histórico de abuso em sua família – ambos sinalizadores de perigo aos investigadores.

Ao se concentrarem no pai, investigadores desconsideraram outro homem, Albert Raymond Carder Jr., que tinha sido condenado por molestar quatro outras meninas, entre 7 e 10 anos de idade, na vizinhança de Alicia entre fevereiro e maio de 1989. Em ao menos dois desses casos, Carder entrou em uma casa pela janela de um quarto. Ele foi mais tarde condenado por seqüestrar uma quinta menina pela janela do quarto dela.

Em junho de 1990, depois e meses de aconselhamento por Goodfriend e em total isolamento de sua família, Alicia mudou sua história e disse que o seu pai era o estuprador.

Wade foi preso e encarava 16 anos de prisão. Ele pediu emprestado mais de $100.000 de seus pais para pagar sua defesa e outras contas. Dee tentou se matar e foi hospitalizada. Alicia foi reservada à adoção por seus pais adotivos.

Então, quando o caso criminal e o de adoção seguiram em frente, manchas de sêmen – esquecidas pela polícia e por promotores por quase dois anos – foram encontradas nas roupas de dormir da garota.

Elas foram analisadas e comparadas com o sangue de Wade. Testes de DNA provaram que o pai não havia deixado o sêmen. Ele foi declarado factualmente inocente, e Alicia voltou para casa, dois anos e meio depois do estupro.

Mais cedo esse ano, o Escritório do Promotor Distrital completou testes mais sofisticados de DNA e acusaram Carder – já servindo uma sentença de prisão de 25 anos – com o ataque de Alicia. Sua audiência preliminar está agendada para 14 de junho.

Wade disse que um dos fatores que a família tinha de pesar ao entrar em um acordo era a possibilidade de as agências governamentais receberiam imunidade do processo. 

Oficiais da cidade e do Condado pediram para ser dispensados do caso, argumentando que mesmo se as alegações do processo forem verdadeiras, eles estavam protegidos por leis que se destinavam a incentivar a investigação e repressão de crimes. Uma audiência sobre essas moções foi agendada para ontem.

“Se o juiz deixar o condado se safar, eu nunca vou conseguir pagar de volta aos meus pais o que eu devo a eles.” Wade disse.

Wade falou que ele queria que o caso fosse a julgamento, mas depois de falar durante várias horas com o Juiz Hoffman em uma conferência de ajustamento nessa semana, ele mudou de ideia.


NOTAS DE TRADUÇÃO


1 – No original, “Parentectomy”.

2 – Do latim, locus classicus significa “local clássico”. Em inglês, geralmente é utilizado para se referir a uma passagem frequentemente citada como impositiva para ilustrar certo ponto ou assunto. Dado o contexto, sou levado a crer que a intenção era se referir ao significado em latim. 

3 – “Kafkaesco” aqui faz referência ao trabalho de Franz Kafka, em especial seu livro O Processo, no qual o personagem Josef K. é preso por um crime cuja natureza não lhe é revelada, e é processado em um tribunal tirânico de autoridade desconhecida, que tenta lhe quebrar a vontade em uma barreira de burocracia impenetrável. O Processo é o comentário de Kafka sobre governos totalitários. 

4 – O caso Watergate foi o escândalo político ocorrido em 1974 nos Estados Unidos que, ao vir à tona, acabou por culminar com a renúncia do presidente Richard Nixon, do Partido Republicano. "Watergate", de certo modo, tornou-se um caso paradigmático de corrupção. https://pt.wikipedia.org/wiki/Caso_Watergate

5 – Sobre o sistema de adoção temporária ou “Foster Care” nos EUA: https://gazetanews.com/como-adotar-uma-crianca-nos-estados-unidos/

6 – O escândalo de Tailhook foi uma série de incidentes nos quais mais de 100 oficiais da aviação da Marinha dos EUA e do Corpo de Fuzileiros dos EUA foram acusados ​​de agredir sexualmente 83 mulheres e sete homens, ou de outra forma estarem envolvidos em conduta "imprópria e indecente" no Las Vegas Hilton em Las Vegas Vegas, Nevada. Ainda hoje existem dúvidas sobre as condutas de investigação e mesmo sobre a veracidade das alegações. https://en.wikipedia.org/wiki/Tailhook_scandal

7 – Uma ordem de mordaça é uma ordem, geralmente uma ordem legal de um tribunal ou governo, que impede que informações ou comentários sejam tornados públicos ou passados ​​a terceiros não autorizados. https://en.wikipedia.org/wiki/Gag_order

8 – Tomás de Torquemada foi um frade dominicano espanhol. Nomeado como inquisidor pelo papa Inocêncio VIII e prestigiado pela rainha Isabel de Castela, este clérigo promoveu uma feroz caçada contra bígamos, agiotas, judeus, homossexuais, bruxas e hereges. Geralmente, baseado em denúncias de fraca sustentação, seus investigados eram presos e submetidos a interrogatório nos calabouços da Inquisição. https://www.historiadomundo.com.br/idade-moderna/torquemada-o-temivel-inquisidor.htm

9 – Creio que aqui houve um erro de digitação ou talvez simples engano, que mantive na tradução, pois o irmão de Alicia se chamava Joshua, não Jason.

10 – O caso da Pré-Escola de McMartin foi um caso de abuso sexual em uma creche nos anos 80, processado pelo procurador do distrito de Los Angeles, Ira Reiner. Membros da família McMartin, que operavam uma pré-escola em Manhattan Beach, Califórnia, foram acusados ​​de inúmeros atos de abuso sexual de crianças sob seus cuidados. As acusações foram feitas em 1983. As detenções e a investigação preliminar ocorreram de 1984 a 1987 e o julgamento ocorreu de 1987 a 1990. Após seis anos de julgamentos criminais, nenhuma condenação foi obtida e todas as acusações foram retiradas em 1990. Quando o julgamento terminou em 1990, havia sido o julgamento criminal mais longo e mais caro da história americana. O caso fazia parte da histeria de abuso sexual em creches, um pânico moral sobre alegados abusos rituais satânicos nos anos 80 e no início dos anos 90. 


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