Releitura pós-redpílica: Among the sleep



De volta novamente, irmãos meus!
Aviso: Spoilers! Muitos spoilers!
Continuando a série em que eu revejo diversos aspectos de histórias ficcionais (vídeogames, livros, HQ’S, etc.) que li, reli ou joguei recentemente, sob a ótica das revelações acerca dos relacionamentos entre homens e mulheres que a redpilização traz, falemos hoje do jogo “Among the Sleep” (algo como “No meio do sono” ou “Entre os que dormem”).
O jogo foi desenvolvido através de crowdfunding (vaquinha virtual) por uma equipe norueguesa, o Krillbrite Studio. Ele apresenta diversos aspectos comuns em jogos do tipo “Survival Horror” contemporâneos: o protagonista é incapaz de se defender dos inimigos, a história avança com a resolução de puzzles, etc. Foi lançado em 2014 para PC e nos anos seguintes para Playstation 4 e XBOX One.
Nesse jogo em especial, o protagonista é um bebê, presumivelmente menino (segundo a wiki e se me permitem a Damarização aqui, baseado no pijama azul que o guri usa) no dia do seu aniversário de dois anos. Enquanto sua mãe lhe serve um pedaço de bolo, a campainha soa e, com uma cara contrafeita e resignada, ela vai atender. A tela se distorce enquanto ouve-se uma discussão ininteligível (exceto por um “O que você está fazendo aqui?” e um sonoro “NÃO” emitido pela mãe no final) seguido por um bater violento de porta.
A mãe volta com um presente em mãos e o leva, junto com o bebê, ao quarto da criança. O guri descobre que o presente é um ursinho de pelúcia, que se torna animado, começa a brincar com ele e o apresenta a alguns aspectos de gameplay (abraçar o urso em áreas escuras faz com que ele emita um pouco de luz, por exemplo).
Eventualmente a mãe retorna e o coloca para dormir, junto com o ursinho. O jogo em si começa quando o urso é “raptado” por uma figura sombria e o guri vai ao seu resgate, sendo informado que a mãe dele está em algum lugar, provavelmente em perigo e precisa de sua ajuda.
O rapazinho acaba percorrendo diversos ambientes aparentemente formados pela sua imaginação, completa puzzles envolvendo “memórias” da mãe e tenta evitar os monstros ao longo dos capítulos da história.
Esse foi um resumão, mas e quanto aos aspectos “redpílicos” da história? Well, sentem que lá vem a história:
A mãe da criança, apresentada no início do game como amável e carinhosa, é alcoólatra e abusiva para com o garoto. Os monstros que são vistos ao longo das fases são todas manifestações, providenciadas pela mente infantil, da mãe:
Harald (o estranho) é a silhueta de uma figura alta usando capa e botas, e segurando um guarda-chuva. Representa a mãe saindo furtivamente pra comprar vinho;

Hyda (a dama da floresta) é uma figura feminina alta, com membros alongados e cabelos desgrenhados. Representa a mãe quando fica deprimida e bebe pra afogar as mágoas; e


Heap (o monstro de sobretudo) é uma figura vestindo um sobretudo (dã) com o rosto envolto em sombra e com olhos brilhantes, que parte para o ataque quando ouve o barulho de garrafas quebrando (no nível que ele aparece, há dezenas de garrafas empilhadas por todos os lugares). Representa a mãe quando bebe, fica enraivecida e sensível a barulhos altos, descontando sua frustração na criança.



Nesse e em diversos outros pontos, o jogo é uma jóia rara: geralmente, quando a mídia quer representar um genitor abusivo, o escolhido quase que unanimemente é o pai.
A discussão no início do jogo? O pai do guri chega no seu aniversário querendo visitá-lo (ele e a mãe se divorciaram e surprise, surprise, ela ganhou custódia) e leva um presente (o urso). A mãe o impede de entrar e ver o filho, mas aceita o presente.
Também no início do jogo, a mãe pega o guri se escondendo no guarda-roupa, e diz: “Você tem que parar de se esconder de mim”. Daí se pressupõe que isso é algo que ele faz com freqüência.
Por fim, depois de resolver os enigmas e passar pelas fases todas, a mente do guri finalmente é apresentada à verdade: sua mãe, que pode ser querida e amável quando quer, é também um monstro. Ela o empurra quando está caída bêbada no chão da cozinha, com o urso danificado, embora se mostre arrependida logo em seguida.

A última cena mostra o bebê se encaminhando para a porta, ouvindo a voz do pai (que soa estranhamente parecida com a que o bebê imagina ser a do seu urso), que afirma que vai consertar o braço arrancado do ursinho (uma alegoria para também “consertar” a vida conturbada que o guri estava tendo?)
Embora muito pouco se possa inferir acerca da personalidade do pai da criança, o que não se pode negar é que a mãe definitivamente não tem condições de criá-lo. Além de abusar fisicamente do filho, aparentemente ela também sabota qualquer aproximação entre o guri e o pai.
Alguns meses depois do lançamento do jogo, foi publicado um DLC (conteúdo adicional) que sugere, durante vários flashbacks, que o pai e a mãe freqüentemente discutiam antes do divórcio, e em certa ocasião ele parece pronto para agredi-la. Evidências encontradas tanto no jogo principal quanto no DLC, porém, não sustentam a hipótese de que ele era igualmente abusivo com relação à mãe. É possível que as discussões entre eles tenham se originado justamente do vício da mulher em álcool, e ele estivesse querendo que ela parasse agora que formavam família.
Enfim, o jogo merece algum mérito por ter rompido com o “padrão” e mostrado que mulheres podem ser violentas e abusivas (especialmente contra crianças). Que a presunção automática de que as mães merecem custódia, total ou parcial, nem sempre é acertada.
Feminismo Delenda Est!




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