Releitura pós-redpílica: A Crônica do Matador do Rei



Olá novamente, amados irmãos!
Uma coisa que se pode falar da proverbial Pílula Vermelha é que uma vez ingerida, se torna difícil (mesmo impossível) enxergar o mundo novamente com os mesmos olhos. É complicado deixar de ver as injustiças, uma vez que elas são apontadas e se tornam óbvias.
Outro aspecto de ter tomado a Red Pill, recentemente ou mesmo de longa data, é a maneira como ela “estraga” certas obras de ficção que, até pouco tempo atrás, nos pareciam perfeitamente aceitáveis, até mesmo ilustrativas da realidade.
Este post será provavelmente o primeiro de uma série, em que eu revejo diversos aspectos de histórias ficcionais (vídeogames, livros, HQ’S, etc.) que li ou reli recentemente, sob a ótica das revelações acerca dos relacionamentos entre homens e mulheres que a redpilização traz.
A trilogia “A Crônica do Matador do Rei”, de autoria do americano Patrick Rothfuss, conta até o momento com dois livros lançados, além de uns poucos tie-ins menores publicados em separado.
Embora a série seja no geral boa, com uma história rica e um protagonista muito bem trabalhado, ela tem seus momentos de escravocetagem.
Em resumo: os livros contam a história de Kvothe, um jovem que nasceu e cresceu em meio a uma trupe de artistas itinerantes (que guardam uma certa semelhança com ciganos) e que se viu órfão e completamente sozinho na vida quando essa mesma trupe, incluindo seus pais, foi chacinada pelos misteriosos seres paranormais conhecidos como o Chandriano. Mais tarde, após viver uns anos como menino de rua, ele decide ir para a Universidade (uma das maiores referências em educação nesse mundo fictício) para ser um Arcanista e aprender mais sobre os assassinos de seus pais.
Kvothe, o Arcano

Arcanistas são membros do Arcanum, um círculo dentro da Universidade que domina, além das disciplinas mais mundanas, certos aspectos de magia, como alquimia, siglística e simpatia (uma forma de magia que impõe força de vontade para altear a realidade). Embora esses tipos de magia sejam mais “pé no chão”, há também uma manipulação maior dos elementos e da realidade, ligada à nomeação (“sabendo o nome de alguma coisa, obtém-se poder sobre ela).
Enfim, depois de fazer um alarde em sua admissão (era mais jovem do que a maioria dos outros estudantes, mas estava em um nível claramente avançado; convenceu os mestres da Universidade a pagarem para ele estudar, basicamente), Kvothe reencontra uma guria que o deixa totalmente embestado, Denna. O Kvothe mais velho (que narra a história) passa boa página e meia tentando descrevê-la.
Mas eu não padeço desse mal, então posso fazê-lo: ela é uma puta. Minto, na verdade. Putas são mais honestas que ela, então ela é pior que uma puta.

Denna usa sua beleza e charme naturais para atrair rapazes e homens ricos, que lhe compram presentes e a sustentam. Em tese, ela não trepa com os caras, e os dispensa no momento em que sente que começam a ficar íntimos demais, mudando então de cidade (e de nome. Ela usa diversos) e partindo para o próximo trouxa.
Kvothe usa uma abordagem diferente com ela e por isso os dois ficam num chove não molha absolutamente nojento e pegajoso por toda a narrativa. Melhores opções surgem na vida do jovem ruivo, mas embora ele eventualmente comece a plantar sua semente em muitos solos férteis, não persegue relacionamento com mais ninguém.
Em uma “cena” particularmente irritante, ao conversar sobre Denna com um amigo, Deoch, Kvothe reclama dessa “complexidade” de caráter da moça. Deoch a defende, comentando sobre ela ter tido uma infância difícil, sem família ou recursos. Quanto Kvothe contra-argumenta que a infância dele também não foi um mar de rosas e não fez ele virar um puto todo fodido (pelo contrário, as circunstâncias adversas o fortaleceram), Deoch aponta que há uma diferença entre os dois casos: ela é mulher. E, portanto, teria apenas duas opções de vida: prostituição ou casamento. Como ela não queria vender o corpo (pois isso seria muito baixo!!!), decidiu que ia vender a sua beleza de uma maneira que não precisasse afogar o ganso de seus clientes, digo, pretendentes, e virou uma “cortesã” profissional.
Kvothe, o privilegiado

O jeito que Kvothe se humilha e corre atrás dela é patético, mas Denna não é a principal fonte de irritação pós-redpílica nessa obra.
Essa honra cabe aos Ademrianos.
No segundo volume da série, O Temor do Sábio, Kvothe é iniciado na filosofia da Lethani, praticada pelos Ademrianos, por Tempi, um mercenário que o acompanha numa missão. Como ensinar essa filosofia (que pode também tomar a forma de uma arte-marcial) a não-ademrianos é basicamente proibido, Kvothe é obrigado a “completar” sua iniciação e conhece um tanto dessa cultura em Ademre.
A cultura ademriana é alienígena sob muitos aspectos. Pra começar, o Ademre é um matriarcado. As mulheres têm grande papel na sociedade e são consideradas, de maneira geral, superiores aos homens. (urgh, onde foi que eu li isso antes?).
Inclusive nas artes marciais que utilizam, que dependem menos de força e mais de agilidade, autocontrole, foco e precisão. Aparentemente, mulheres são mais focadas, ágeis, controladas e precisas que homens. Aham.

Ademais, o papel dos homens na reprodução é considerado inexistente, e se homens são mais “impetuosos” e “violentos” que as mulheres é porque eles têm ciuminho das mulheres, que são consideradas as únicas capazes de gerar vida. Aliás, Kvothe faz um péssimo trabalho ao tentar explicar que é impossível a geração de uma nova vida sem um macho. Quase concede o ponto à sua interlocutora.
Apesar desses exemplos, reitero, a história é boa. Os momentos de camaradagem entre Kvothe e seus colegas de Universidade, ou mesmo no futuro com seu aprendiz, Bast, são muitas vezes tocantes e outras vezes engraçados.
Espero ansiosamente pelo 3º e último volume da série, que o autor se nega a dizer quando vai sair. Ah, esses autores que se acham reizinhos, humpf!
Com essa me despeço e, antes que eu esqueça:
Feminismo Delenda Est!

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